15.10.12

Ano da Fé: O cerne


Por Mons. Hugo de Azevedo

O Santo Padre é muito claro quanto ao que espera do «Ano da Fé». Após a introdução da Carta Apostólica «Porta Fidei», logo no segundo número, manifesta a sua principal intenção: «Sucede muitas vezes que os cristãos sentem maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé», remetendo-se ao que já dissera aos portugueses na homilia do Terreiro do Paço: «Muitas vezes, preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista».
E assim o repete na «Porta Fidei»: «Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ele inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade, devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas».

Então, não nos interessa recuperar ou infundir os valores cristãos na sociedade? Não só nos interessa muito, para bem das almas, mas constitui inclusivamente a missão específica dos leigos, que devem ordenar «ab intra» as estruturas sociais segundo Cristo, como várias vezes repete o Concílio. Assim procederam os primeiros cristãos, embora sem qualquer programa social ou político, impensável até ao século IV. Se a sociedade mudou radicalmente a partir de então, não foi por vitória de activistas cristãos, mas pela vida de fé autêntica da maioria dos fiéis. 

Daí o aviso que nos deu o Santo Padre na citada homilia: «Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?»

Estruturas e programas são necessários, sem dúvida. O que nos veio dizer o Santo Padre é que não há programas que valham «se o sal se torna insípido», isto é, se cada cristão não conhece bem «os conteúdos» da fé e não procura torná-los vida da sua vida; se estruturas e programas não têm eles mesmos por fim a vitalidade sobrenatural de cada fiel. O objectivo primordial do «Ano da Fé» é o objectivo primordial do cristão: a união com Deus em Cristo. Uma vida eucarística, sacramental, de incessante oração: «É preciso orar sempre, sem desfalecer». (Lc 8,1) Ou seja, uma vida de intimidade com o Espírito Santo, que conduz a Igreja e cada alma pelos caminhos do amor de Deus e do amor ao próximo.

Um dos desideratos do «Ano da Fé» é o de relermos e estudarmos o Catecismo da Igreja Católica, e alguém aconselhava a «começarmos pelo fim», ou seja, pela quarta parte: «A Oração Cristã». Queria chamar a atenção para a «causa final» de toda a doutrina: a amizade com Deus. «Não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu a ser condenado», temia S. Paulo (I Cor 9, 27) Não venha a acontecer que a nossa sabedoria se componha de palavras, que nos iluminam, mas não nos transformam.

Diríamos que não falta fé no Povo de Deus. Bastam-nos umas noções rudimentares para dizermos como S. Pedro: «Para quem iremos?» (Jo 6, 68) Que outra sabedoria se lhe pode comparar? Mas, além de nos esclarecermos, temos de lembrar-nos de que é uma sabedoria «prática» - para praticar, e não só para saber. «Repassando as páginas (do Catecismo), descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja» (PF 11), uma relação familiar que deve ser cultivada diariamente, sob pena de se esfumar em vagas ideias e sentimentos. Com razão dizia um convertido: «o maior inimigo da fé é a abstracção», transformar a fé numa ideologia filantrópica, sem outro horizonte que não seja um melhor nível de vida social. 

O Santo Padre não deixa de referir «a grande contribuição que homens e mulheres (cristãs) prestaram, com o testemunho da sua vida, para o crescimento e o progresso da comunidade» (PF 13), mas antes recordara que, «sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos» (PF 11).

O «Ano da Fé» é uma ocasião de graça para aumentar em nós, acima de tudo, o amor e a confiança na graça divina.