16.10.12

Nova Evangelização, por D. António Couto

Impõe-se ainda dizer, é mesmo necessário ainda dizer, em jeito de conclusão ou de introdução, que aquilo que me parece ser mais importante na expressão «nova evangelização» não é tanto a novidade de métodos, expressões ou estratégias, mas a FIDELIDADE da Igreja ao Senhor Jesus (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi [1975], n.º 41), ao seu estilo, ao seu modo de viver, de fazer e de dizer: Dom total de si mesmo num estilo de vida pobre, humilde, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado. 

Passa por aqui sempre o caminho e o rosto da Igreja, que tem de fazer a memória do seu Senhor, configurando-se com o seu Senhor e transfigurando-se no seu Senhor. Impõe-se, portanto, uma verdadeira conversão do coração, e não apenas uma mudança de verniz. Sim, temos necessidade de anunciadores do Evangelho sem ouro, nem prata, nem cobre, nem bolsas, nem duas túnicas (Mt 19,9-10; Mc 6,6-8; Lc 9,3-4)… 

Sim, é de conversão que falo, e pergunto: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes? 

15.10.12

Ano da Fé: O cerne


Por Mons. Hugo de Azevedo

O Santo Padre é muito claro quanto ao que espera do «Ano da Fé». Após a introdução da Carta Apostólica «Porta Fidei», logo no segundo número, manifesta a sua principal intenção: «Sucede muitas vezes que os cristãos sentem maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé», remetendo-se ao que já dissera aos portugueses na homilia do Terreiro do Paço: «Muitas vezes, preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista».
E assim o repete na «Porta Fidei»: «Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ele inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade, devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas».

Então, não nos interessa recuperar ou infundir os valores cristãos na sociedade? Não só nos interessa muito, para bem das almas, mas constitui inclusivamente a missão específica dos leigos, que devem ordenar «ab intra» as estruturas sociais segundo Cristo, como várias vezes repete o Concílio. Assim procederam os primeiros cristãos, embora sem qualquer programa social ou político, impensável até ao século IV. Se a sociedade mudou radicalmente a partir de então, não foi por vitória de activistas cristãos, mas pela vida de fé autêntica da maioria dos fiéis. 

Daí o aviso que nos deu o Santo Padre na citada homilia: «Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?»

Estruturas e programas são necessários, sem dúvida. O que nos veio dizer o Santo Padre é que não há programas que valham «se o sal se torna insípido», isto é, se cada cristão não conhece bem «os conteúdos» da fé e não procura torná-los vida da sua vida; se estruturas e programas não têm eles mesmos por fim a vitalidade sobrenatural de cada fiel. O objectivo primordial do «Ano da Fé» é o objectivo primordial do cristão: a união com Deus em Cristo. Uma vida eucarística, sacramental, de incessante oração: «É preciso orar sempre, sem desfalecer». (Lc 8,1) Ou seja, uma vida de intimidade com o Espírito Santo, que conduz a Igreja e cada alma pelos caminhos do amor de Deus e do amor ao próximo.

Um dos desideratos do «Ano da Fé» é o de relermos e estudarmos o Catecismo da Igreja Católica, e alguém aconselhava a «começarmos pelo fim», ou seja, pela quarta parte: «A Oração Cristã». Queria chamar a atenção para a «causa final» de toda a doutrina: a amizade com Deus. «Não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu a ser condenado», temia S. Paulo (I Cor 9, 27) Não venha a acontecer que a nossa sabedoria se componha de palavras, que nos iluminam, mas não nos transformam.

Diríamos que não falta fé no Povo de Deus. Bastam-nos umas noções rudimentares para dizermos como S. Pedro: «Para quem iremos?» (Jo 6, 68) Que outra sabedoria se lhe pode comparar? Mas, além de nos esclarecermos, temos de lembrar-nos de que é uma sabedoria «prática» - para praticar, e não só para saber. «Repassando as páginas (do Catecismo), descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja» (PF 11), uma relação familiar que deve ser cultivada diariamente, sob pena de se esfumar em vagas ideias e sentimentos. Com razão dizia um convertido: «o maior inimigo da fé é a abstracção», transformar a fé numa ideologia filantrópica, sem outro horizonte que não seja um melhor nível de vida social. 

O Santo Padre não deixa de referir «a grande contribuição que homens e mulheres (cristãs) prestaram, com o testemunho da sua vida, para o crescimento e o progresso da comunidade» (PF 13), mas antes recordara que, «sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos» (PF 11).

O «Ano da Fé» é uma ocasião de graça para aumentar em nós, acima de tudo, o amor e a confiança na graça divina.

21.1.12

Bento XVI: "O verdadeiro direito é inseparável da justiça"

Cidade do Vaticano (RV) - Na manhã deste sábado, o Papa recebeu na Sala Clementina, no Vaticano, cerca de 150 pessoas que integram o Tribunal da Rota Romana e a elas, fez um discurso. 

Bento XVI começou lembrando que a interpretação da lei canônica deve ser feita exclusivamente pela Igreja. Os Códigos não são sujeitos à ‘criatividade jurídica’ – frisou, ressaltando ainda que no campo interpretativo, deve ser também aplicada à lei canônica a hermenêutica da renovação na continuidade. “É na verdade da fé que o direito canônico encontra seu fundamento e sentido” – explicou. 

“O verdadeiro direito é inseparável da justiça” – remarcou o Papa, acrescentando que “o princípio vale obviamente também para a lei canônica, no sentido que esta não se encerra em um sistema normativo meramente humano, mas deve ser relacionada a uma ordem justa da Igreja, na qual vige uma lei ‘superior’”. 

“Quando a obra interpretativa humana age como protagonista, estabelecendo o que é jurídico, vem a faltar o sentido do direito objetivo, que fica relegado a considerações presumivelmente teológicas ou pastorais, expostas ao risco da arbitrariedade”. 

Enfim, as reflexões sobre justiça e direito têm uma importância peculiar no âmbito das leis relativas ao ato constitutivo do matrimônio, sua consumação e a recepção da Ordem Sagrada. Assim sendo, a sintonia com o verdadeiro sentido da lei da Igreja se transforma em uma questão de incidência prática ampla e profunda na vida das pessoas e comunidades e, portanto, requer uma atenção especial.