9.7.10

Verdade e consequência

"A verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32))

Estas palavras de Jesus mantêm toda a sua actualidade. Nem sempre é fácil reconhecer a verdade sobre nós próprios. É tão fácil confundir-nos com falsas desculpas, pretextos mais ou menos convincentes.

No entanto, o caminho do reconhecimento das próprias faltas é o primeiro passo para as corrigir, para lhes pôr o remédio. O doente que prefere evitar as dores e não procura a sua raiz mais profunda, acabará por nunca se conseguir curar.

As nossas principais dificuldades não são os outros: somos nós próprios, com a nossa miséria e os nossos pecados. Se somos honestos connosco, acabamos por concluir que, por muitas dificuldades que a vida, o ambiente e os outros nos criam, o nosso pior inimigo somos nós com as nossas misérias e faltas.

E este aspecto, que é uma realidade da vida pessoal, é também uma realidade na vida das instituições. Reconhecer as próprias culpas pessoais na nossa vida é doloroso. Mas reconhecer as culpas pessoais como causa do mal dentro de uma instituição é ainda mais doloroso, porque tornam-se factos ainda mais públicos e, por conseguinte, mais difíceis de reconhecer. 

Testemunhas da nossa própria vida, somos também espectadores solitários e únicos da maior parte das nossas misérias e falhanços. Mas quando essas misérias pessoais são sentidas a nível da instituição à qual pertencemos, tornam-se mais conhecidas e, por conseguinte, mais vergonhosas e difíceis de reconhecer: "os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja." (Bento XVI, Encontro com os jornalistas, Viagem Apostólica a Portugal, 2010.05.11)

Muitos interpretaram estas palavras do Papa como se se referisse apenas à questão da pedofilia. No entanto, são palavras muito mais amplas: são o único caminho que, na realidade, cura o mal. O reconhecimento das misérias pessoais, no cristão, leva à penitência, à confissão sacramental, à oração mais generosa. O único caminho para que a Igreja seja verdadeiramente missionária é esse reconhecimento das nossas próprias fraquezas.  
Vem isto a propósito da quantidade de notícias sobre a Igreja nos últimos tempos. "Nunca, nunca, nunca dizer mentiras", dizia o Card. Foley numa conferência sobre a comunicação na Igreja, aqui há uns anos. A verdade torna-nos realmente livres porque, quanto mais transparecem as nossas fraquezas e misérias, mais se vê que a Igreja é obra de Deus.