19.5.10

"O Céu não pode esperar"

"Fazei que o Céu seja sempre o horizonte da vossa vida! Disseram-vos que o Céu pode esperar, mas enganaram-vos...

A voz que vem do Céu não é como estas vozes que fazem lembrar a lendária sereia enganadora que adormecia as suas vítimas antes de as precipitar no abismo. Há dois mil anos que, partindo da Galileia, ressoa até aos confins da terra a voz definitiva do Filho de Deus que diz: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15).

Fátima recorda-nos que o Céu não pode esperar! Por isso peçamos, com filial confiança, a Nossa Senhora que nos ensine a dar o Céu à terra."

Card. Tarcisio Bertone, Homilia, 2010.05.12

14.5.10

Visita do Papa: Impressões (I)

Já o Papa Bento XVI estava em Portugal, quando me fiz à estrada, juntamente com alguns paroquianos de Monteiras, Cujó, Pendilhe, Moura Morta e Vilar, além da Ass. de Guias e Escuteiros de Portugal, na quarta feira, dia 12 de Maio. A saída foi às 7h30 e o destino era Fátima.

Ao contrário do que estava anunciado, não houve qualquer tipo de confusão ou dificuldade para entrar em Fátima. Conseguimos estacionar no Parque n. 11, mesmo ao lado do Centro Paulo VI.

Depois de ter passado algum tempo a levantar as credenciais para os Encontros que o Santo Padre ia ter, na tarde desse dia, com os Sacerdotes, Religiosas, Seminaristas e membros dos Conselhos Económicos e da Pastoral.

Uma saudação a Nossa Senhora, na Capelinha, e depois a espera para se poder entrar na Igreja da Santíssima Trindade. Foi momento de pôr a conversa em dia com outros Sacerdotes da Diocese de Lamego e seminaristas.

Já dentro da Igreja da Santíssima Trindade, assistimos à chegada do Papa através dos ecrans que ali estavam colocados. Unimo-nos ao Papa na sua primeira saudação a Nossa Senhora, e na entrega da Rosa de Ouro ao Santuário. E foi enorme a emoção quando o Papa se dirigiu ao nosso encontro.

Ao chegar à Igreja da Santíssima Trindade, todos recebemos o Santo Padre com alegria e muita emoção. Tínhamos diante de nós o Sucessor de S. Pedro.

Nesse encontro, ouvimos palavras de encorajamento: "A todos vós que doastes a vida a Cristo, desejo nesta tarde exprimir o apreço e reconhecimento eclesial. Obrigado pelo vosso testemunho muitas vezes silencioso e nada fácil; obrigado pela vossa fidelidade ao Evangelho e à Igreja."

Mas ouvimos, também, palavras de desafio e de exigência: "A fidelidade à própria vocação exige coragem e confiança, mas o Senhor quer também que saibais unir as vossas forças; sede solícitos uns pelos outros, sustentando-vos fraternalmente. Os momentos de oração e estudo em comum, de partilha das exigências da vida e trabalho sacerdotal são uma parte necessária da vossa vida. Como é maravilhoso quando vos acolheis uns aos outros nas vossas casas, com a paz de Cristo nos vossos corações! Como é importante que vos ajudeis mutuamente por meio da oração e com conselhos e discernimentos úteis! Particular atenção vos devem merecer as situações de um certo esmorecimento dos ideais sacerdotais ou a dedicação a actividades que não concordem integralmente com o que é próprio de um ministro de Jesus Cristo." (Bento XVI, Vésperas, 2010.05.12)

O momento mais marcante aconteceu quando o Papa, num absoluto silêncio, se ajoelhou diante do Santíssimo Sacramento, que estava solenemente exposto no altar. Foram uns longos minutos, de intimidade, em que sentimos que o Santo Padre rezava e pedia por cada um de nós, e por todos os sacerdotes, seminaristas, consagrados e todos os fiéis.

Já ao início da noite, começa a chover. O recinto do Santuário estava cada vez mais cheio e nem aquela chuva, um pouco insistente, desmotivou. Era impressionante a quantidade de jovens, portugueses e estrangeiros, que enchiam o recinto. Pessoas que não se conheciam, falavam umas com as outras, trocavam expressões. Esse início de noite fez-me lembrar aqueles encontros de uma família que se reúne para estar mais perto do pai.

Entretanto, chegou a hora do terço e, subitamente, deixa de chover. O recinto, cheio de peregrinos com velas acesas, recebe o Papa no meio de muita alegria. Viam-se pessoas a chorar e dizer: "Eu nunca pensei que amava tanto o Papa".

O Santo Padre chega à Capelinha, cumprimenta a multidão, que quase não permite que Bento XVI comece a recitação do terço. Finalmente, já um pouco depois da hora prevista, começa a oração. Faz-se silêncio, entrecortado com os cânticos, com as admonições. Começa o terço, presidido pelo Papa. Apesar da multidão com velas, há um verdadeiro clima de oração. Impressiona a figura daquele homem de cabelos brancos, que se ajoelha em oração diante da imagem de Nossa Senhora. É a imagem de uma Igreja que sabe que o seu lugar não é nos holofotes deste mundo, mas sim aos pés de Nossa Senhora e de Jesus, que está no sacrário por trás daquela imagem da Nossa Mãe do céu.

Quando termina o terço, o Papa retira-se. O silêncio da oração dá lugar ao entusiasmo e à alegria de termos Bento XVI ao alcance de um olhar. O Papa rompe o protocolo, e beija uma criança. Cai em estilhaços a imagem de um alemão frio e calculista, e abre-se o nosso coração para amar um Papa bondoso e enternecido.

A longa procissão desde a Capelinha até ao altar do recinto com a imagem de Nossa Senhora inclui cerca de 800 sacerdotes, praticamente todos os Bispos portugueses, e o Card. Tarcisio Bertone, que preside à Santa Missa da Vigília. Na homilia, o Cardeal convida-nos a todos a seguir o exemplo de Jacinta, e a tornar-mo-nos simples como as crianças, diante de Deus.

Assim que termina a Missa, começa a chover. Não acredito em coincidências.

A vigília ao longo da noite inclui adoração eucarística na Igreja da Santíssima Trindade, a Via Sacra, uma Oração Mariana e a procissão eucarística.

Amanhece em Fátima e chove, por vezes, abundantemente.

Dirijo-me para o local da paramentação. São tantas as caras conhecidas. Pelo meio, um senhor, ao ver um tipo gordo e ainda meio ensonado vestido de padre, pede-me para se confessar. Vamos para um local um pouco menos confuso e ele ajoelha-se, sem olhar a respeitos humanos. Depois, continuo para onde os sacerdotes se deviam paramentar e sigo para o sítio reservado aos sacerdotes. Continua a chover.

Recebo um telefonema de D. Claudio Girlanda. Pede-me que diga umas palavras em italiano para a Telepace. Agradeço-lhe a amabilidade do convite e vou respondendo ao que me pergunta.

Assim que o Papa entra no recinto do Santuário, pára de chover. Começa a Santa Missa. Vê-se um Papa feliz, que abraça a multidão e é abraçado pela nossa alegria de o termos connosco, e de, com ele, estarmos aos pés da Virgem. Encontro-me no meio de 1400 sacerdotes. Em todos eles, renova-se o entusiasmo.

Na homilia, dizia o Papa: "Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162). Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu." (Bento XVI, Homilia, 2010.05.13)

A Santa Missa termina com a procissão do adeus. Lenços brancos e um olhar à Virgem. Rezo pelo povo que me está confiado. Peço, de maneira especial, pelos doentes, pelos que vivem sós e por aqueles que ainda não descobriram a alegria de encontrarem Jesus. Lembro-me daqueles que ainda pensam que a fé cristã se resume à frequência dos ritos e ainda não descobriram a amizade pessoal com Jesus, que se alimenta na oração, nos sacramentos e na adoração eucarística.

Depois de um almoço frugal na companhia da minha boa mãe, preparo-me para o encontro que o Papa terá com os representantes da pastoral social. Vou à procura do estúdio que a Antena 1 montou na Igreja da Santíssima Trindade. É ali, com a Rosário Lira, que acompanho o Papa. As palmas ressoam quando o Papa, com a sua simplicidade, se refere ao aborto e à riqueza que é o matrimónio como Deus o criou e como a Igreja o defende.

Termina o encontro e esperamos que o Santo Padre discurse aos Bispos. Dou-me conta do intenso trabalho e fadiga que é, também para os jornalistas, acompanharem o Papa. Dou-lhes os parabéns pelo fantástico trabalho que fazem. O Papa fala aos Bispos da necessidade de, também eles, acolherem essa primavera da Igreja que são os novos movimentos e realidades eclesiais.

Regresso a casa e vou repetindo: Obrigado, Senhor! Obrigado, Santo Padre!

11.5.10

O Papa em Portugal


10h57: O avião da Alitalia que transporta o Santo Padre Bento XVI, na sua visita apostólica a Portugal, aterra em Lisboa.

Na sua saudação ao Presidente da Republica, o Papa fala do centenário da República, da sua viagem como peregrino a Fátima, das raízes cristãs do nosso país.

Mas foram as palavras que o Santo Padre pronunciou no avião que chamaram mais à atenção. Nas últimas semanas, várias personalidades eclesiásticas acusaram os meios de comunicação social de lançarem uma campanha contra o Papa e contra a Igreja. Hoje de manhã, aos jornalistas, o Papa manifestou a sua opinião: a crise que a Igreja atravessa deve-se aos pecados dos seus membros. O mal não vem de fora: está cá dentro.

E este é o caminho: o caminho da transparência, do reconhecimento, da verdade sobre as próprias misérias de alguns membros da Igreja. E este é o primeiro passo para se resolverem todas as crises, porque esse reconhecimento é essencial para o perdão: para o perdão de Deus, e para o perdão dos homens.

7.5.10

Onde eu me encontro com Bento XVI, por José Manuel Fernandes

Por José Manuel Fernandes

Talvez por isso mesmo eu, que não tenho fé, termine lembrando que, pouco tempo antes da morte de João Paulo II, numa conferência na Escola de Cultura Católica de Santa Croce, em Bassano, o ainda cardeal Ratzinger propôs a inversão do axioma dos iluministas de acordo com o qual era possível definir as normas morais essenciais etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse, para passar a propor que "mesmo aqueles que não conseguem encontrar o caminho da aceitação de Deus deveriam procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretus, como se Deus existisse". Lembrou então que esse fora o conselho de Pascal aos seus amigos não-crentes, considerando que, assim, "ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram o apoio e o critério de que têm urgente necessidade".

In Público, 2010.05.07 (através de O Povo)

5.5.10

Só eu sei porque não fico em casa: porquê ver Bento XVI ao vivo?

Visita de Bento XVI a Portugal

Por P. Rodrigo Lynce de Faria

No próximo dia 11 de Maio, chegará a Lisboa o Papa Bento XVI. É a sua primeira viagem a Portugal depois de, em Abril de 2005, ter sido eleito sucessor do inesquecível Papa João Paulo II, que em três ocasiões visitou o nosso país: 1982, 1991 e 2000. Qual é o motivo desta viagem que durará quatro dias e que terá tantos eventos abertos a todos os portugueses? É evidente que não posso – nem pretendo – responder pelo Papa.

No entanto, não é difícil constatar que estas viagens possuem sempre uns objectivos primordiais: confirmar-nos na fé, renovar-nos a esperança, recordar-nos o infinito amor que Deus tem por cada um de nós. Os três objectivos – basta olhar com calma à nossa volta – são profundamente actuais. Quantos portugueses desanimados encontramos diariamente! Quanta falta de esperança! Quanta falta de alegria – uma alegria genuína – em tantos corações! Como se atrofia – infelizmente – o espírito de tantos, imerso num materialismo sufocante!

Para todos nós – de um modo especial para aqueles que somos católicos – esta viagem do Papa é um enorme presente de Deus. Se ele nos vem visitar, a primeira atitude da nossa parte deve ser muito concreta: recebê-lo bem. Fazer um esforço real por estar pessoalmente com ele. Agradecer-lhe – com a nossa presença – a sua vinda a este nosso país que tanto amamos, e que tão bem soube receber no passado outros sucessores de São Pedro: Paulo VI e João Paulo II.

Mas não será mais fácil ficar tranquilamente em casa e acompanhar comodamente a visita pela televisão? Mais fácil é. Em relação a isso, ninguém tem dúvidas. No entanto, nem sempre aquilo que é mais fácil é o que mais nos convém. É perniciosa esta tendência que temos para nos isolarmos atrás da televisão, da internet e dos múltiplos aparelhos electrónicos! É mais fácil. Ninguém nos aborrece e ninguém nos incomoda. No entanto, estamos a fomentar um individualismo que, depois, tanto gostamos de lamentar. Quantas pessoas dirão mais tarde: “Eu devia ter estado lá. Teria sido outra coisa. Que pena!”.

É evidente que haverá pessoas que por motivos sérios (doença, idade avançada, compromissos inadiáveis) estão impossibilitadas de se deslocarem. Essas pessoas também estarão – de um modo diferente – presentes nos encontros com o Papa. Podem oferecer a Deus esse desgosto de não estarem pessoalmente com Bento XVI. Pelo contrário, para todos aqueles que possamos deslocar-nos, estar ao vivo com o Papa será algo muito diferente. Que o digam os inúmeros jovens que têm participado nas Jornadas Mundiais da Juventude por este mundo fora.

Certa vez, ouvi um jovem resumir assim a oportunidade que tivera de estar pessoalmente com o Vigário de Cristo na Terra: “Estar com o Papa, mesmo cercado de milhares de pessoas, foi algo único e inesquecível na minha vida. Aproximou-me de Deus. Mudou radicalmente o meu modo de encarar o futuro. Encheu-me de alegria e de esperança. Uma alegria e uma esperança que este mundo – e tudo o que é passageiro – nunca me conseguiram dar”.

4.5.10

Card. Ratzinger sobre a Mensagem de Fátima

A visita do Santo Padre Bento XVI a Portugal é uma boa ocasião para conhecer melhor a mensagem que, em Fátima, Nossa Senhora deu a conhecer aos Pastorinhos.

No ano 2000, quando foi dada a conhecer a terceira parte do segredo de Fátima, foi também publicado um comentário teológico do então Cardeal Ratzinger no qual, entre outras coisas, afirmava: "A palavra-chave desta parte do «segredo» é o tríplice grito: « Penitência, Penitência, Penitência!»

Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: « Pænitemini et credite evangelio » (Mc 1, 15). Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé. Tal é a resposta justa a uma época histórica caracterizada por grandes perigos, que serão delineados nas sucessivas imagens.

Deixo aqui uma recordação pessoal: num colóquio que a Irmã Lúcia teve comigo, ela disse-me que lhe parecia cada vez mais claramente que o objectivo de todas as aparições era fazer crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade; tudo o mais pretendia apenas levar a isso.»

Portanto, o Papa que vem como peregrino a Fátima é um profundo conhecedor dos acontecimentos e dos ensinamentos de Fátima. Como Papa e, sobretudo, como peregrino, esta visita vai enriquecer e, com certeza, iluminar os corações.

O comentário do Card. Ratzinger pode ser lido AQUI>>