10.4.10

O caso do P. Kiesle

Em 1978, o P. Stephan Kiesle, da Diocese de Oakland, nos Estados Unidos, abusou de 6 menores, entre os 11 e os 13 anos.

Nunca é demais dizer que, um abuso cometido por um sacerdote, é demais; que as vítimas devem ser ajudadas; que o sacerdote deve ser punido e impedido de continuar a abusar de crianças.

Dito isto, sobre o presente caso há a dizer o seguinte:

Confirmados os abusos, o P. Stephan Kiesle pede a dispensa das obrigações do estado clerical e o processo começa a ser tratado, em 1981, na Diocese de Oakland.

Em 1985, o caso é transmitido à Congregação para a Doutrina da Fé que, só neste momento, tem conhecimento do caso (vd. comunicado de Jeffrey Lena, advogado da Santa Sé nos Estados Unidos).

A carta, publicada pela Associated Press, só mostra a resposta do Card. Ratzinger e manifesta o interesse em estudar a situação por parte da Congregação.

A legislação em vigor no ano de 1985 não permitia à Congregação para a Doutrina da Fé proceder penalmente contra o P. Kiesle. Essa competência, segundo o Direito Canónico vigente, pertencia ao Bispo Diocesano. Por isso, a resposta do Card. Ratzinger é coerente: "Torna-se, portanto, oportuno que esta Congregação se dedique a um exame mais rigoroso de um caso desta natureza, que tornará necessário um longo espaço de tempo." Isto porque a Congregação teria que estudar a maneira de proceder segundo uma legislação que não lhe dava qualquer competência no caso. A competência de tratar de casos de pedofilia por parte da Congregação para a Doutrina da Fé só lhe foi concedida em 2001.

Por conseguinte, não é que o Card. Ratzinger tenha querido atrasar a concessão da dispensa ao P. Kiesle: é que, mesmo querendo conceder essa dispensa, a Congregação não podia fazê-lo por não ser competente, nessa altura, para avaliar este tipo de casos. Quem tinha competência para tratar do processo era o Bispo Diocesano.

A Congregação para a Doutrina da Fé, segundo umas normas publicadas em 1980 pela Santa Sé, só podia analisar o caso depois que o P. Kiesle chegasse aos 40 anos (em 1985 só tinha 38). Por isso, neste contexto, a resposta do Card. Ratzinger é perfeitamente compreensível: por parte da Congregação, seria necessário esperar dois anos para a Congregação, segundo as normas em vigor, pudesse conceder a dispensa ao P. Kiesle.

Até nisto, o actual Papa merece um louvor: foi ele que terminou com a prática de só conceder a dispensa a sacerdotes com mais de 40 anos.

O Card. Ratzinger, na carta, é muito claro: o futuro Papa Bento XVI exorta o Bispo de Oakland a "seguir com cuidado paternal o Orador [P. Stephan Kiesle]", significando com isto que a conduta e o modo de proceder do referido sacerdote teriam que ser acompanhadas de modo especial por parte do Bispo.

O P. Kiesle acabaria por ser dispensado das obrigações do estado clerical menos de dois anos depois (em 1987).

Lendo a carta e percebendo as circunstâncias em que foi escrita, torna-se óbvio como as acusações, à primeira vista muito válidas, contra o actual Papa não passam de má informação.