29.4.10

Bento XVI aceita renúncia de D. António Montes, Bispo de Bragança-Miranda

Na manhã de hoje, D. António Montes Moreira, Bispo da Diocese de Bragança-Miranda, tornou público que o Santo Padre Bento XVI tinha aceite a sua renúncia como Bispo da Diocese. No documento de aceitação de renúncia, concede-se ao Sr. D. António Montes todas as faculdades para continuar como Administrador Apostólico da Diocese, enquanto não for nomeado um sucessor (o que deve acontecer no próximo ano).

D. António Montes Moreira nasceu em S. Tomé do Castelo, concelho de Vila Real, entrou para a Ordem Franciscana e foi ordenado sacerdote a 13 de Julho de 1958. Ordenado Bispo a 14 de Outubro de 2001, desde essa data presidiu aos destinos da Diocese de Bragança-Miranda.

Mons. Agostinho Borges sobre Bento XVI


Mons. Agostinho Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses, deu uma entrevista na qual fala do Santo Padre Bento XVI.

Pode ler a entrevista no Jornal I de hoje.

Já ouviu falar de Waltraud Klasnic?

Um pouco antes da Páscoa, o Card. Christoph Schönborn, de Viena e Presidente da Conferência Episcopal da Áustria, instituiu uma Comissão de Inquérito aos casos de pedofilia cometidos por sacerdotes ou que tenham acontecido em instituições da Igreja naquele país.

Foi nomeada como presidente dessa Comissão a Sra. Waltraud Klasnic, ex-governadora de uma das regiões da Áustria.

A nomeação da Sra. Klasnic gerou alguma perplexidade ao início, pois é conhecida a sua colaboração com a Diocese de Graz (Áustria), o que faria temer pela imparcialidade da comissão na análise dos factos.

Na realidade, a Sra. Klasnic acaba de nomear os restantes membros da Comissão à qual preside: Brigitte Bierlein, 51 anos, magistrada e, desde 2003, Vice-Presidente do Tribunal Constitucional austríaco; Ulla Konrad, Presidente dos psicólogos austríacos; Reinhatd Haller, psiquiatra e neurólogo, frequentemente nomeado como perito em processos judiciais; Werner Leisnering, especialista em psiquiatria juvenil e Médico na Clínia Neurológica de Linz; Caroline List, Juíza em Graz e co-fundadora do "Fórum contra os abusos sexuais"; Kurt Scholz, ex-Presidente do Conselho Escolar de Viena, premiado em 2009 pelo trabalho desenvolvido contra os abusos físicos e psicológicos cometidos nas escolas; Udo Jesionek, que já foi Presidente do Tribunal de Menores de Viena e é actualmente o Presidente do “Weißer Ring” (“Anel Branco”), uma organização que presta assistência às vítimas de crimes e às suas famílias.

Mas a grande novidade desta Comissão é a nomeação de Hubert Feichtlbauer, de 78 anos, Presidente desde 1998 da “Wir sind Kirche” (“Nós somos Igreja”).

As dúvidas sobre a possível falta de imparcialidade da Comissão, depois de tornadas públicas este conjunto de nomeações, foram totalmente dissipadas, e demonstram como, dentro da Igreja, se está a pôr em prática as indicações do Vaticano, que referem que o caminho a seguir é o da transparência e da verdade.

28.4.10

O melhor


"O melhor de Portugal não abre os noticiários, mas existe. Nas escolas, nas instituições de saúde, nas IPSS, onde há abnegações quotidianas e vontades que não esmorecem perante as dificuldades".

D. Manuel Clemente, in Jornal I, 2010.04.28, p. 8

16.4.10

"Não é nossa"

Por Pedro Arroja

O pensamento do Papa Bento XVI tem sido frequentemente mal entendido, noutras ocasiões puramente ressentido. Um dos temas centrais respeita à própria ideia de Igreja.

Existe a convicção, incluindo no mundo católico, de que a Igreja pertence a todos nós, é uma património da humanidade e que nós próprios podemos, portanto, mudar as estruturas da Igreja, emitindo opinião, associando-nos em correntes de opinião e fazendo pressão, de molde a adaptá-la aos tempos modernos. Sobre esta convicção, diz Bento XVI:

"(...) se a Igreja é a nossa Igreja, se a Igreja somos apenas nós, se as suas estruturas não são as que Cristo quis, então deixa de ser concebível a existência de uma hierarquia (...) estabelecida pelo próprio Senhor. Rejeita-se o conceito de uma autoridade querida por Deus, uma autoridade que tem a sua legitimação em Deus e não - como acontece nas estruturas políticas - no consenso da maioria dos membros da organização. Mas a Igreja de Cristo não é um partido, não é uma associação, não é um clube: a sua estrutura profunda e ineliminável não é democrática, mas sacramental, portanto hierárquica" (*).

A Igreja não é nossa. A Igreja é de Cristo. Reformar a Igreja não é adaptá-la aos desejos de qualquer maioria, mesmo que essa maioria seja formada por pessoas que se proclamam católicas. Reformar a Igreja é adaptá-la aos desejos de Cristo. Sob a autoridade de Bento XVI a Igreja nunca será popular. Como se tem visto nas últimas semanas.
(*) Cit. em Dag Tessore, Bento XVI: Pensamento Ético, Político e Religioso, Lisboa: Temas e Debates, 2007, p. 15

In Portugal Contemporâneo

Parabéns, Santo Padre!

Crise e comunicação

Numa situação de crise "é preciso evitar dois extremos: querer resolver o problema sem informar o público directamente interessado, ou então tomar decisões com a finalidade principal de serem comunicadas, e não com a finalidade de resolverem o problema".

Santiago de la Cierva, "La comunicazione di crisi nella Chiesa", Ed. EDUSC, 2008, p. 47

15.4.10

Despertar

Uma das piores tentações do cristianismo é o comodismo.

Se, com João Paulo II, a Igreja gozou de uma certa paz mediática (não esquecendo que o Papa polaco, além de ter sido um dos Papas mais amados, foi também dos mais odiados pela comunicação social), atravessamos novamente tempos de agitação.

Atacam o Papa, a Igreja, a moral católica, com pretexto e sem pretexto. É verdade que algumas pessoas com grandes responsabilidades têm dado o flanco, mas isso faz parte do processo de adaptação a uma nova realidade de tempestade comunicativa.

Estas semanas de contínuos ataques, sejam eles justificados ou não, estão a ter como inevitável consequência que os cristãos estão a acordar. Há pessoas a afastar-se de Cristo e da Igreja? Talvez. Mas mais importante, é que a adesão a Cristo e à Igreja de muitos cristãos está a tornar-se mais forte, mais generosa e mais cristalina.

Estão a tirar-nos do nosso comodismo, das nossas rotinas, e estão a obrigar-nos a dar as razões da nossa fé. É altura de, como nos primeiros tempos da Igreja, nos unirmos cada vez mais à pessoa e intenções do Papa, seguir as suas indicações e não nos desviarmos desse caminho. E, dessa maneira, esta tempestade, mais do que prejudicar a Igreja, vai tornar o amor dos cristãos a Cristo e a esta Mãe mais intenso e efectivo.

14.4.10

Nós que nos escandalizamos

Por P. Jorge Margarido Correia

Temos uma grande responsabilidade de discernimento, porque os sentimentos fortalecem a razão quando a ela se adequam, ou enfraquecem-na quando se distanciam dela.


Nós que nos escandalizamos, e com razão, com os casos de pedofilia por parte de quem devia ensinar os valores morais de que a Igreja é paladina, temos uma grande responsabilidade de discernimento.

Se essas acções são fruto desse ensino moral, então devemos abandonar esse ensino, a começar pelos 10 Mandamentos.

Mas se o que nos escandaliza é precisamente a contradição entre os valores e as acções, então temos que pôr todo o nosso empenho em defender esses valores contra o relativismo que está tão difundido, louvar a Igreja e os pastores que os defendem e prestar sincera homenagem aos santos de todos os tempos que os encarnaram.
Nós que nos escandalizamos, e com razão, pelo silêncio de alguns que poderiam ter-se erguido contra esses crimes evitando mais vítimas, temos uma grande responsabilidade de discernimento.

Se essas acções e esses silêncios são de Pastores da Igreja e em número significativo e generalizado no tempo e no espaço, então devemos atribuir à Igreja no seu todo essa responsabilidade.

Mas se, como está mais que provado, se trata de uma minoria na Igreja e a maior parte deles de há já muitos anos, e este triste fenómeno é muito mais significativo no contexto da sociedade toda, então não podemos, com o nosso silêncio, permitir que os católicos em geral e os seus pastores sejam vítimas de uma violência moral por parte dos poderosos deste mundo e de alguma comunicação social que lhes presta vassalagem.

Nós que nos escandalizamos, e com razão, perante esse exercício desviado da sexualidade de um adulto imposto a um menor, temos uma grande responsabilidade de discernimento.

Ou o mal está nesse desvio do adulto e, sabendo como se sabe que na maior parte dos casos estamos em presença de uma tendência homossexual, temos que rever essa ideia que nos querem impingir que a homossexualidade é um modo mais como outro qualquer de exercer a sexualidade.

Ou o mal está em tratar-se de menores ainda sem maturidade para esse exercício, e então temos que pensar no que acontece com os programas de educação sexual dirigidos às crianças, ensinando-lhes que tudo é natural. Se esses programas vão para a frente, a pedofilia deixará de o ser e transforma-se em aulas práticas.

Nós que nos escandalizamos, e com razão, com os crimes hediondos porque desejamos acabar com tais injustiças, temos uma grande responsabilidade de discernimento, porque os sentimentos fortalecem a razão quando a ela se adequam, ou enfraquecem-na quando se distanciam dela, e podemos correr o risco de estar a dançar ao som de uma música de uma orquestra que não é a nossa.

* Eng.º Mecânico. Doutor em Teologia

10.4.10

O caso do P. Kiesle

Em 1978, o P. Stephan Kiesle, da Diocese de Oakland, nos Estados Unidos, abusou de 6 menores, entre os 11 e os 13 anos.

Nunca é demais dizer que, um abuso cometido por um sacerdote, é demais; que as vítimas devem ser ajudadas; que o sacerdote deve ser punido e impedido de continuar a abusar de crianças.

Dito isto, sobre o presente caso há a dizer o seguinte:

Confirmados os abusos, o P. Stephan Kiesle pede a dispensa das obrigações do estado clerical e o processo começa a ser tratado, em 1981, na Diocese de Oakland.

Em 1985, o caso é transmitido à Congregação para a Doutrina da Fé que, só neste momento, tem conhecimento do caso (vd. comunicado de Jeffrey Lena, advogado da Santa Sé nos Estados Unidos).

A carta, publicada pela Associated Press, só mostra a resposta do Card. Ratzinger e manifesta o interesse em estudar a situação por parte da Congregação.

A legislação em vigor no ano de 1985 não permitia à Congregação para a Doutrina da Fé proceder penalmente contra o P. Kiesle. Essa competência, segundo o Direito Canónico vigente, pertencia ao Bispo Diocesano. Por isso, a resposta do Card. Ratzinger é coerente: "Torna-se, portanto, oportuno que esta Congregação se dedique a um exame mais rigoroso de um caso desta natureza, que tornará necessário um longo espaço de tempo." Isto porque a Congregação teria que estudar a maneira de proceder segundo uma legislação que não lhe dava qualquer competência no caso. A competência de tratar de casos de pedofilia por parte da Congregação para a Doutrina da Fé só lhe foi concedida em 2001.

Por conseguinte, não é que o Card. Ratzinger tenha querido atrasar a concessão da dispensa ao P. Kiesle: é que, mesmo querendo conceder essa dispensa, a Congregação não podia fazê-lo por não ser competente, nessa altura, para avaliar este tipo de casos. Quem tinha competência para tratar do processo era o Bispo Diocesano.

A Congregação para a Doutrina da Fé, segundo umas normas publicadas em 1980 pela Santa Sé, só podia analisar o caso depois que o P. Kiesle chegasse aos 40 anos (em 1985 só tinha 38). Por isso, neste contexto, a resposta do Card. Ratzinger é perfeitamente compreensível: por parte da Congregação, seria necessário esperar dois anos para a Congregação, segundo as normas em vigor, pudesse conceder a dispensa ao P. Kiesle.

Até nisto, o actual Papa merece um louvor: foi ele que terminou com a prática de só conceder a dispensa a sacerdotes com mais de 40 anos.

O Card. Ratzinger, na carta, é muito claro: o futuro Papa Bento XVI exorta o Bispo de Oakland a "seguir com cuidado paternal o Orador [P. Stephan Kiesle]", significando com isto que a conduta e o modo de proceder do referido sacerdote teriam que ser acompanhadas de modo especial por parte do Bispo.

O P. Kiesle acabaria por ser dispensado das obrigações do estado clerical menos de dois anos depois (em 1987).

Lendo a carta e percebendo as circunstâncias em que foi escrita, torna-se óbvio como as acusações, à primeira vista muito válidas, contra o actual Papa não passam de má informação.

A carta que anda na boca do mundo


Em seguida, apresento uma tradução minha da Carta que o então Card. Ratzinger escreveu a 19 de Novembro de 1985 ao Bispo de Oakland, John Cummins:

«Excelentíssimo Senhor,

Depois de ter recebido a tua carta do dia 13 de Setembro, a propósito da causa de dispensa de todas as obrigações sacerdotais do reverendo Stephan Miller Kiesle, dessa Diocese, é meu dever comunicar-te quanto segue.

Este Dicastério, ainda que dê a máxima importância aos argumentos feitos a favor da dispensa pedida no caso, considera necessário ter em conta o bem da Igreja universal juntamente com o bem daquele que apresentou o pedido [de dispensa] e, por esse motivo, não pode diminuir a importância dos danos que a concessão da dispensa possa provocar na comunidade dos fiéis, considerada, sobretudo, a idade jovem de quem fez o pedido.

Torna-se, portanto, oportuno que esta Congregação se dedique a um exame mais rigoroso de um caso desta natureza, que tornará necessário um longo espaço de tempo.

Enquanto isso acontece, V. Excelência não deixe de seguir com cuidado paternal o Orador [P. Stephan Kiesle], manifestando-lhe as razões do modo de proceder deste Dicastério, que costuma agir tendo em vista o bem comum.

Aproveito a ocasião para manifestar os meus fortes sentimentos de estima, mantendo-me sempre o seu

joseph Ratzinger»