21.3.10

Dedo na ferida

Os abusos de menores por parte de uns poucos membros do clero, não se resolvem com penas canónicas. O problema de fundo, como o Santo Padre bem diz, "com frequência as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e a tornam capaz de crescer, como por exemplo a confissão frequente, a oração quotidiana e os ritos anuais, não foram atendidas." O abandono da vida espiritual, a falta de luta ascética tem como inevitável consequência uma maior tendência a uma vida longe da graça de Deus. E, onde falta habitualmente a graça de Deus, há um maior facilitismo e tolerância em relação à prática de pecados, dos mais pequenos, aos mais graves. Aqui está o problema de fundo, na questão da pedofilia.

No entanto, o Santo Padre não esconde outro aspecto, também importante: "houve uma tendência, ditada por recta intenção mas errada, a evitar abordagens penais em relação a situações canónicas irregulares."

O Direito penal, desde há várias décadas, é alvo de uma errada compreensão, dentro e fora da Igreja. As penas canónicas não servem para condenar ninguém. Servem, sim, para que uma determinada pessoa que tenha cometido um delito grave (como pode ser o abuso de uma criança) seja obrigada a reflectir e a mudar a sua conduta. E serve, sobretudo, para garantir que uma determinada pessoa que tenha cometido um delito grave fique sem a possibilidade de usar da sua posição para cometer delitos semelhantes com a mesma ou outras pessoas. É essa a finalidade das penas canónicas.