19.3.10

Abrir as portas

"As crises escondem oportunidades", tem sido repetido vezes sem conta nos últimos dois anos.

O recente volume de notícias sobre a existência de abusos sexuais de menores por parte de membros da Igreja, sobretudo sacerdotes, pode ser considerada uma crise que, no entanto, é também uma grande oportunidade.

Em primeiro lugar, ninguém está mais interessado no apuramento da verdade sobre possíveis abusos por parte de membros do clero do que a própria Igreja. Por isso, todas as denúncias que se provem ser verdadeiras não são um mal, mas sim um bem, porque vão permitir proteger os mais fracos. No entanto, nas notícias que têm vindo a público, parece que os jornalistas não se preocupam com as vítimas. Preocupam-se, sim, com o celibato, com o interesse em descobrir se os Bispos esconderam casos que conheciam ou quantos são as denúncias que envolvem sacerdotes (sem qualquer preocupação sobre se as denúncias são verdadeiras ou falsas, se houve condenação de alguém, ou se os processos de denúncia foram arquivados).

Em segundo lugar, como escreve Massimo Introvigne, "o problema não é o celibato (...). No mesmo período em que uma centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais de menores, o número de professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas jovens, também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos podem multiplicar-se, e não só nos Estados Unidos. E o principal dado a ter em conta, de acordo com os relatórios periódicos do governo americano, é o de que dois terços dos abusos sexuais a menores não são feitos por estranhos, ou por educadores – incluindo os sacerdotes católicos e os pastores protestantes –, mas por membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos próprios pais." O problema, portanto, não é o celibato, mas sim a falta dele, já que a tendência para os abusos de menores é muito maior em quem tem vida sexual activa do que em quem é celibatário.

Em terceiro lugar, continuando com Massimo Introvigne, "80% dos pedófilos são homossexuais, são homens que abusam de outros homens. E – voltando a citar Philip Jenkins – 90% dos sacerdotes católicos condenados por abusos sexuais de menores e pedofilia são homossexuais. Se a Igreja Católica tem efectivamente um problema, não é o do celibato, mas o de uma certa tolerância da homossexualidade nos seminários, que teve particular incidência nos anos 70, a época em que foi ordenada a grande maioria dos sacerdotes que foram posteriormente condenados por abusos."


A atitude do Papa Bento XVI acabará por produzir frutos: "existe uma vontade real de erradicar o problema [da pedofilia do seio da Igreja]. Dói, como quando se cura uma infecção, mas o resultado só pode ser positivo. Para as pessoas sérias, essa é a notícia".