27.10.09

Santa Sé abre a porta a anglicanos

Nos últimos anos, grupos de fiéis anglicanos, descontentes com a evolução doutrinal da sua igreja, têm-se aproximado do catolicismo. Respondendo aos seus pedidos, a Santa Sé anunciou a criação de novas estruturas eclesiásticas nas quais poderão integrar-se colectivamente os que desejam ser católicos, conservando o seu património espiritual específico e com clero próprio.

O anúncio foi feito em conferência de imprensa pelo cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e pelo arcebispo Augustine di Noia, secretário da Congregação para o Culto Divino. A moldura jurídica deste plano será exposta numa Constituição Apostólica que Bento XVI publicará em breve.

Segundo a nota informativa publicada pelo Vaticano, nesta Constituição o Papa cria a estrutura canónica de "Ordinariatos pessoais, que permitirão aos fiéis que tenham sido anglicanos entrar em plena comunhão com a Igreja católica, conservando ao mesmo tempo elementos do património espiritual e litúrgico característicos dos anglicanos". As suas estruturas serão de "algum modo semelhantes às dos Ordinariatos militares, que foram erigidos em tantos países para o atendimento pastoral dos membros das forças armadas e das suas famílias".
Trata-se, pois, de estruturas equivalentes a dioceses não territoriais, para integrar grupo de fiéis ex-anglicanos que partilham algumas tradições litúrgicas e espirituais e que desejam uma "comunhão plena e visível com o Bispo de Roma, sucessor de São Pedro", segundo explicou Levada.
À frente de cada Ordinariato haverá um bispo, que "normalmente será nomeado entre o clero que tenha sido anglicano". Os fiéis do Ordinariato dependerão do seu prelado e não do bispo diocesano.

No actual Código do Direito Canónico prevê-se outro tipo de entidade não territorial, as prelaturas pessoais, existindo actualmente só uma: o Opus Dei. Mas neste caso, os seus fiéis dependem do bispo do lugar do mesmo modo que os outros fiéis, e só dependem do seu Prelado para os fins apostólicos peculiares da Prelatura.

Poderá haver padres casados

O plano prevê a possibilidade de os padres casados provenientes do anglicanismo serem ordenados como sacerdotes católicos. Esta dispensa do celibato já se aplicou em outras ocasiões para os ex-pastores anglicanos, assim como também existem sacerdotes casados entre católicos de ritos orientais. Contudo, o bispo que esteja à frente de um destes Ordinariatos não poderá ser casado. Segundo explica a nota, "razões históricas e ecuménicas não permitem a ordenação como bispos de homens casados nem na Igreja Católica nem na Ortodoxa".

Para conseguir um equilíbrio entre a conservação do património anglicano e a incorporação destes grupos na Igreja católica, prevê-se que os seminaristas do Ordinariato sejam formados junto com os outros seminaristas católicos, se bem que possa ser aberto um centro de formação que responda às suas necessidades de formação específica.

A Constituição Apostólica que será publicada em breve prevê para receber estes antigos fiéis anglicanos "um único modelo canónico para a Igreja universal, adaptável às situações locais". A nota diz que os ordinariatos serão criados onde forem necessários, consultando os bispos locais.

A pedido de muitos anglicanos

O cardeal Levada quis deixar claro que a criação destas novas estruturas responde ao pedido de vários grupos de anglicanos provenientes de diferentes partes do mundo. "Eles declararam que partilham a fé católica comum, tal como vem no Catecismo da Igreja Católica, e que aceitam o ministério petrino como um elemento querido por Cristo para a Igreja. Para eles chegou o tempo de exprimir tal união implícita numa forma visível de plena comunhão".

A nota recorda que nos últimos tempos algumas igrejas anglicanas romperam com as tradições cristãs comuns ordenando mulheres, mudando o ensino bíblico sobre a sexualidade, ordenado padres declaradamente homossexuais e abençoando as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Ao mesmo tempo, muitos anglicanos entraram na Igreja católica, individualmente e às vezes em grupo, conservando certa estrutura corporativa. A Igreja católica não podia deixar sem resposta estes pedidos.

O diálogo ecuménico vai continuar

Para reafirmar que esta decisão do Vaticano é compatível com a manutenção do diálogo ecuménico com os anglicanos, o arcebispo católico de Westmister, Vicent Nichols, e o arcebispo anglicano de Canterbury, Rowan Williams, assinaram uma declaração comum. Neste gesto pouco habitual explicam que com esta medida se põe fim a um período de incertezas para os anglicanos que queriam abraçar a fé católica. Consideram que a anunciada Constituição Apostólica "é um posterior reconhecimento da coincidência fundamental em fé, doutrina e espiritualidade entre a Igreja Católica e a tradição anglicana". A nota afirma também que este passo teria sido impossível sem o diálogo ecuménico desenvolvido nos últimos quarenta anos, diálogo que vai continuar.

Veremos agora o que se passará com os grupos de anglicanos que, descontentes com a evolução doutrinal dos seus correligionários, se separaram deles. Nos Estados Unidos os episcopalianos tradicionais criaram uma igreja paralela. E em 2008 ocorreu de facto um cisma na Comunhão Anglicana, com a criação da Fellowship of Confessing Anglicans que representa metade da comunhão anglicana (uns 36 milhões de fiéis) e um terço dos bispos, que querem defender a doutrina tradicional.

In Aceprensa