18.12.08

O desafio de Cristo


Uma das atitudes que mais me impressiona em Jesus Cristo é o modo como Ele exige naquilo que considera essencial e a liberdade que Ele outorga aos discípulos (e a todos) naquilo que é acessório.

Jesus não transige na indissolubilidade do matrimónio, no perdão, no amor aos inimigos. E dá a Sua vida pelos homens, depois de horríveis sofrimentos físicos e das maiores humilhações.

No entanto, olhamos à nossa volta e vemos tantos e tantas a fazer exactamente o contrário: exigem naquilo que Cristo não exigiu. E, naquilo que Nosso Senhor foi tão claro, baixa-se o nível de exigência, diz-se que as coisas não são bem como Nosso Senhor diz e que os tempos mudam. Um dos casos mais frequentes é o tema da indissolubilidade do matrimónio.

O desafio que Nosso Senhor nos coloca está em dar a importância àquilo que Ele considerou, na sua pregação e no seu exemplo, como valores inegociáveis.

O privilégio de Maria


No seu artigo "A Imaculada Conceição", Anselmo Borges afirma que esta festa "está infestada com equívocos", mas é o seu texto que está repleto de imprecisões e equívocos. Vejamos alguns.

Começa por citar Santo Agostinho, a quem apresenta como autor da doutrina do pecado original, "transmitido a todos, por herança, no acto sexual". Seria importante dizer, no entanto, que a Igreja Católica nunca ratificou este ponto de vista nos seus documentos oficiais.

Mas Anselmo Borges não o faz e, em vez disso, sem mudar de parágrafo, na mesma linha, acrescenta: "Houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original".

Desafio Anselmo Borges a citar um único texto, entre as centenas de obras de Santo Agostinho, em que esta afirmação, ou qualquer outra semelhante, apareça.

Mas desde já lhe sugiro que se poupe a este trabalho, porque seria inútil. Santo Agostinho nunca diz, em momento nenhum, que Maria foi concebida sem pecado.

O mesmo acontece com outros grandes nomes do pensamento cristão, como S. Bernardo, Santo Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino.

Anselmo Borges parece desconhecê-lo, mas nenhum destes grandes teólogos aceitou a Imaculada Conceição de Maria.

O povo aceitava-a e celebrava-a, pelo menos desde os séculos VII e VIII. Mas os teólogos, apesar da sua grande devoção por Maria, opunham-se, porque não a conseguiam justificar teologicamente, isto é, racionalmente.

Qual era o problema? O problema era que tomavam a sério o que diz S. Paulo na Epístola aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: "Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte".

Tomando a sério este texto, todos acreditavam que no início da história da humanidade tinha havido um acto de desobediência a Deus, que marcou a história futura.
Foi um acto que isolou os homens de Deus. O egoísmo isola. Devíamos ser canais da vida de Deus para os outros e já não somos.

E por isso nascemos mais pobres, mais fragilizados.

Vimos ao mundo com esta dignidade espantosa de sermos homens e mulheres, mas nascemos sem a vida de Deus, a que se chama "graça", e que só depois poderemos recuperar, como fruto da vida, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo.

É esta a doutrina cristã do "pecado original". Não tem nada a ver com sexo, ao contrário do que Anselmo Borges se esforça por fazer crer. Não tem nem nunca teve nada a ver com virgindade física, ou com o seu contrário, como Anselmo Borges insinua sem nenhum fundamento.

É uma limitação puramente espiritual. Desequilibra a vida em muitos aspectos. Mas a sua sede é o "espírito" ou o "coração" humano.

Todos os grandes autores que citei, acreditavam que Maria também começou a existir privada dessa dotação espiritual, que é a vida de Deus. Só num momento posterior é que Deus lhe concedeu a "graça", e assim a santificou e a tornou digna de vir a ser um dia a Mãe de Jesus. E por isso não admitem que tivesse sido "imaculada" desde que foi concebida.

Mas houve um outro teólogo medieval, chamado João Duns Escoto, falecido há setecentos anos, em 1308, que compreendeu que Deus tinha uma outra maneira de santificar Maria: era não a deixar ser "apanhada" por esta situação de privação em que todos começamos a existir. Era envolvê-la com a sua graça desde o primeiro momento.

Quando da união dos seus pais, resultou um novo ser humano, que se viria a chamar Maria, a "onda" do amor de Deus chegou até ela. A "mancha" desse antigo egoísmo que já vem de longe não a afectou. Foi "imaculada" desde a concepção. Foi "cheia de graça", como lhe chamou o Anjo, em S. Lucas.

Em 8 de Dezembro de 1854, Pio IX definiu este dogma, e, inspirando-se em Duns Escoto, afirmou que Maria, "desde o primeiro instante da sua concepção (…) foi preservada de toda a manchado pecado original".

O efeito deste "privilégio" foi que Maria, habitada pela presença de Deus desde o momento primordial da sua vida, foi uma mulher mais livre, mais aberta a Deus, mais atenta aos outros. Quando o projecto de Deus a desafiou a jogar a vida, não hesitou. Com alegria, pôs a sua vida ao serviço dos outros.

Ao contrário do que diz Anselmo Borges, a Imaculada Conceição de Maria não envergonha nem humilha as outras mulheres, nem os outros homens. Ver alguém muito melhor do que nós é um estímulo, não é uma humilhação.

Ver alguém como Maria, a quem o egoísmo e a auto-suficiência não dominam, só pode ser para os homens e mulheres normais causa de alegria e fonte de esperança, até porque nos estimula a ser um pouco mais parecidos com ela.

Cón. José Manuel dos Santos Ferreira, em Paróquia de Santa Maria de Belém (trazido pelo Carteiro)

9.12.08

Primavera da Igreja


No dia da Imaculada Conceição, rainha de Portugal, é bom considerar a situação da Igreja Católica. Estranhamente, mesmo entre fiéis mantém-se consensual a sensação de decadência da Fé face aos séculos passados. Mas a experiência histórica aponta precisamente no sentido oposto: vivemos um dos melhores períodos dos 2000 anos de vida cristã.

A evolução histórica da Igreja de Jesus Cristo é uma longa sequência de terríveis problemas. O que apenas confirma a profecia do Fundador, que nunca prometeu facilidades mas sofrimentos e perseguições. Logo os primeiros séculos foram de martírio. A "paz de Constantino" trouxe, não a calma, mas o ataque pior do Arianismo e demais heresias. Assim que a hierarquia se organizou na estrutura do Império, este ruiu nas invasões. Coube à Igreja a lenta e difícil reconstrução da Europa, civilizando os bárbaros. A Cristandade, nascida desse esforço multissecular, permanece o ideal mítico de onde dizemos decair.

O ideal foi real. A decisiva influência medieval da Igreja gerou o dinamismo da modernidade. Mas o período foi tudo menos pacífico. Além da dolorosa clivagem com o Oriente ortodoxo e da invasão turca que forçou as cruzadas, o envolvimento político do clero foi sempre ambíguo e doloroso. A "querela das investiduras" e os conflitos feudais conduziram ao "cativeiro da Babilónia" e ao grande cisma. Por fim, quando a Igreja se globalizava nas caravelas, a suprema ruptura da reforma protestante gerou 200 anos de guerras religiosas. Os 200 anos seguintes de ataques maçons e perseguição ateia conduziram ao nosso tempo.

Nesta intensa história, o presente surge como uma das melhores épocas, interna e externamente. No interior vive-se paz doutrinal e vigor apostólico. Governada há décadas por papas santos na unidade do colégio episcopal, a renovação conciliar e a multidão de movimentos e carismas trouxeram vitalidade espiritual. Externamente, apesar do martírio, o mundo contemporâneo permitiu uma das convivências mais pacíficas. Ao longo dos séculos o poder político saltitou entre duas estratégias opostas limitativas da liberdade religiosa. A primeira persegue, ataca e despedaça a Igreja. Pode-se chamar a isto a atitude de Pilatos, que prende, tortura e mata Cristo. A outra posição acarinha, abafa e controla a religião para finalidades profanas. Esta é a atitude de Herodes, que na Paixão quis entreter a corte com milagres de Jesus. Como o Mestre, a Igreja passou dois mil anos de Herodes para Pilatos. Hoje, apesar dos conflitos, abusos, manipulações, até do martírio, a inserção da Igreja na sociedade democrática é das mais saudáveis e sólidas. Mas não serão reais os sinais de decadência da Fé? Que dizer da crise de vocações, redução do culto, perda de influência religiosa? Esse problema reside, não na Igreja, mas na Europa. A Igreja vive no mundo como sempre. Foi o velho continente que abandonou as suas referências culturais e se debate na triste desorientação civilizacional.

Não é novidade. A atitude da sociedade contemporânea face à Igreja retoma velhas profecias, repetindo a apostasia do povo eleito no Antigo Testamento: "Os filhos de Israel abandonaram a Tua aliança, derrubaram os Teus altares e mataram os Teus profetas." (1Rs 19, 14). Pio IX, João Paulo II e Bento XVI enfrentam aquilo que testemunharam Moisés, Elias e Jeremias. Quem conhece a história da salvação não se admira do que vê à nossa volta. Já S. Agostinho, no estertor do Império face aos vândalos, afirmou: "Muitos queixam-se do seu tempo, como se tivessem sido melhores os tempos antigos. Porventura não murmurariam igualmente se pudessem voltar aos tempos dos antepassados? Sempre julgas melhor o tempo passado, simplesmente porque não é o teu" (Sermão Caillau-Saint-Ives 2, 92).

Hoje vivemos "a nova Primavera de vida cristã que deverá ser revelada pelo Grande Jubileu, se os cristãos forem dóceis à acção do Espírito Santo" (João Paulo II, Tertio Millennio Adveniente, 1994). Não admira: celebramos a festa da Imaculada Conceição, Primavera da Redenção.

João César das Neves, DN, 2008.12.08