29.2.08

O Amor e a lei


«Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu-lhe: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes»
(Mc 12, 28ss)

Muitos apresentam a obediência à lei (seja ela divina ou eclesial) como uma escravidão perante o amor que se deve a Deus e aos homens.

Neste âmbito, refiro-me apenas à lei eclesial: entre lei e amor só há contraposição quando não se quer obedecer. Quando se ama, a obediência (que não é escravidão nem automatismo, pois a nossa obediência deve ser inteligente e, sobretudo, responsável) é a doce submissão à vontade do Amado. Amo obedecendo, mas obedeço porque amo.

26.2.08

Sobre os leigos (II)

O papel dos leigos sempre foi e continuará a ser fundamental na Igreja. Um número considerável de Santos nos primeiros tempos da Igreja foram, precisamente, leigos: as Santas Mulheres, os Santos Inocentes...

Penso, por isso, que o caminho para a valorização dos leigos na Igreja passe, em primeiro lugar, por encorajá-los a pôr em prática o que diz o Concílio Vaticano II: "Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e actividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais..." (Lumen gentium, 32).

Essa é a vocação primária dos leigos: as realidades temporais. E, assim como os sacerdotes e os religiosos necessitam dos meios espirituais para serem fiéis à própria vocação (a celebração e adoração eucaristica, a confissão frequente, a mortificação generosa, a direcção espiritual assídua, entre outras), assim também os leigos necessitam de uma vida sacramental séria.

Sobre os leigos

Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir.

Eu costumava dizer àqueles universitários e àqueles operários que vinham ter comigo por volta de 1930 que tinham que saber materializar a vida espiritual. Queria afastá-los assim da tentação, tão frequente então como agora, de viver uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas.

Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla; se queremos ser cristãos, não podemos ser esquizofrénicos. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser - na alma e no corpo - santa e cheia de Deus, deste Deus invisível que encontramos nas coisas mais visíveis e materiais.

Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar Nosso Senhor na nossa vida corrente ou nunca O encontraremos Por isso posso dizer-vos que a nossa época precisa de restituir à matéria e às situações que parecem mais vulgares o seu sentido nobre e original, colocá-las ao serviço do Reino de Deus, espiritualizá-las, fazendo delas o meio e a ocasião do nosso encontro permanente com Jesus Cristo.
S. Josemaria Escrivá, Amar o mundo apaixonadamente, 1967.10.08

21.2.08

Amor à verdade

Nesta ocasião, prefiro concentrar-me acima de tudo sobre o que representa o ponto fundamental de encontro entre direito e pastoral: o amor à verdade.(...)

O critério da busca da verdade, como nos guia a compreender a dialéctica do processo [de declaração de nulidade do matrimónio], pode assim servir-nos para compreender outro aspecto da questão: o seu valor pastoral, que não pode estar separado do amor à verdade.

De facto, pode acontecer que a caridade pastoral por vezes seja contaminada por atitudes condescendentes em relação às pessoas. Estas atitudes podem parecer pastorais, mas na realidade não correspondem ao bem das pessoas e da própria comunidade eclesial; evitando o confronto com a verdade que salva, eles podem até resultar contraproducentes em relação ao encontro salvífico de cada um com Cristo.

O princípio da indissolubilidade do matrimónio pertence à integridade do mistério cristão. Infelizmente hoje podemos verificar que esta verdade por vezes é obscurecida na consciência dos cristãos e das pessoas de boa vontade. Precisamente por este motivo é enganador o serviço que se pode oferecer aos fiéis e aos cônjuges não cristãos em dificuldade fortalecendo neles, talvez apenas implicitamente, a tendência de esquecer a indissolubilidade da própria união.

Bento XVI, Discurso à Rota Romana, 2006.01.28

16.2.08

Pastoral e Direito

Em muitos ambientes, vive-se ainda um clima que contrapõe a pastoral ao direito, tentando fazer passar a ideia que o direito oprime e a pastoral é libertadora daquelas normas que implicam obrigações, as quais seriam difíceis (ou até impossíveis) de cumprir.

Dá-se o exemplo das normas que regulam o acesso a ser-se padrinho de baptismo, ou toda a questão da pastoral dos divorciados re-casados, e ainda outros temas afins.

Pelo meio, há ainda uma certa ignorância do direito, obtendo-se a informação, muitas vezes, através do "ouvir dizer", sem se recorrer às fontes do direito. Por outro lado, como afirma um conhecido autor, o periodo pós conciliar revelou um fenómeno totalmente novo: pela primeira vez, os contestatários do direito eclesial não foram os cismáticos ou os hereges, mas sim os próprios ministros da Igreja que, em muitos casos, ao porem de lado aquilo que a Igreja lhes pedia, se transformaram eles próprios em juizes e em legisladores. Onde isso foi mais evidente, foi no campo litúrgico.

E esse é um fenómeno transversal em toda a Igreja: sempre que se rejeitam as normas emanadas pelos pastores da Igreja, arranjam-se outras normas emanadas a partir dos gostos da ocasião ou da arbitrariedade do momento, pondo em causa, em muitos casos, a própria comunhão com a Igreja.

Entre a pastoral e o direito só há oposição quando as normas que se usam não são promulgadas pela Igreja mas provêm de outras pessoas que, deixando de servir a Igreja, se põem a elas próprias como fonte normativa. Se a função da Igreja é santificar e encaminhar todas as almas para o Céu, seguindo o mandato de Cristo de evangelizar; se a própria Igreja, através dos canais próprios, é custode do mandato que Cristo lhe confiou, então só há oposição entre pastoral e direito para aqueles que não querem submeter-se ao que a Igreja pede.

11.2.08

Servir a Igreja como ela quer ser servida

É uma conversão necessária para cada um de nós: fazer o esforço de servir a Igreja como ela quer ser servida.

O respeito pelas rubricas litúrgicas, pelas normas disciplinares, pelos direitos dos fiéis e pela sacralidade do ministério são demonstração que servimos a Igreja como ela quer ser servida e não nos servimos da Igreja como nós queremos ser servidos.

8.2.08

Cristianismo adorante


"Chegou a hora de um cristianismo adorante. É o momento de um cristianismo que acredite mais no Corpo do Senhor e ponha a sua esperança no poder da Paixão do Filho que, com o seu próprio Corpo, sustém as fraquezas da história."
Pier Angelo Sequeri, Avvenire, 2008.01.06