25.1.08

Liberdade

Existe um grande mito acerca das ditaduras. Pensa-se que elas costumam começar por conquistas e opressões violentas de «malvados», conhecidos como tal, que agridem cidadãos inocentes. Pelo contrário, a maior parte dos tiranos, antes como hoje, subiu ao poder no meio de aclamações populares, que os viam como defensores do bem e da liberdade. Foi assim Calígula e Napoleão, como Mussolini, Hitler, Staline, Mugabe, Khadafi, Chavez e tantos outros. Os piores déspotas foram sempre salvadores.

Como pode o povo, ansioso por liberdade, cair nas mãos dos ditadores? A razão central é sempre a mesma. Cada um aceita limitar os outros que o prejudicam, acabando ele mesmo limitado. Vão-se permitindo reduções da autonomia pessoal em nome da defesa de valores fundamentais como a justiça, honra, raça, patriotismo, conforto, saúde e tantos outros. Até se limita a liberdade para defender a liberdade, como face à ameaça do terrorismo. Todas as ditaduras têm a sua base no moralismo.

Também as razões que hoje, em Portugal, presidem às recentes leis totalitárias são as moralistas. A «tolerância zero» (só o nome arrepia) nas estradas, a acção da ASAE e DGCI, a lei anti-tabaco, video-vigilância e outras exigências legalistas e burocráticas são instrumentos pensados para viver melhor. Quem as defende esquece-se que esses foram precisamente os argumentos usados há 80 anos pelo Estado Novo para se implantar. Então, como agora, vendo cada uma das medidas repressivas isoladamente, vê-se que elas pretendem melhorar as coisas. Só reduzem mesmo a liberdade.

João César das Neves, in Destak, 2008.01.24