3.12.07

A mudança necessária

Ao longo das últimas 4 semanas, tem-se ouvido de tudo sobre possíveis interpretações ao discurso que o Santo Padre fez aos Bispos Portugueses, na conclusão da visita ad limina.

Essas interpretações, na generalidade, têm um denominador comum: são os outros que têm que mudar. E por isso, afirma-se que são os Bispos que têm que mudar, é a hierarquia, as instituições organizadas, os padres, os leigos. Fica-se com a sensação que nada está bem, que é preciso mudar tudo.

No entanto, olhando a realidade, as coisas não são bem assim. Quem tem que mudar primeiro, não são os outros. Somos nós. Antes de olharmos para aquilo que os outros têm de mudar, este tempo de Advento convida-nos a estarmos vigilantes, em primeiro lugar, em relação a nós próprios.

E o que é que na nossa vida tem que mudar?

"Todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo".
(Concilio Vaticano II, Const. Lumen gentium, 39

A busca da santidade, que vai sempre de mão dada à humildade, é a principal mudança que precisamos. Se Bispos, Padres, Leigos procurarmos ser santos, viveremos em comunhão com Deus e encontraremos as soluções para vivermos a comunhão entre nós.

E faço eco das palavras que o Santo Padre João Paulo II nos dirigiu:
«Colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Baptismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: « Queres receber o Baptismo? » significa ao mesmo tempo pedir-lhe: « Queres fazer-te santo? » Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: « Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste » (Mt 5,48).

Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objecto de equívoco vendo nele um caminho extraordinário, percorrível apenas por algum « génio » da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. Agradeço ao Senhor por me ter concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condições ordinárias da vida. É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta « medida alta » da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direcção.»
João Paulo II, Novo millenium ineunte, 31