28.11.07

O centro de uma mensagem: S. Josemaria Escrivá



Hoje cumprem-se 25 anos da erecção do Opus Dei em Prelatura pessoal. Nestas bodas de prata, aqui fica o centro da mensagem que S. Josemaria, fundador do Opus Dei, pregou ao longo de toda a sua vida.



"Meus filhos, onde estiverem os homens, vossos irmãos; onde estiverem as vossas aspirações, o vosso trabalho, os vossos amores, é aí que está o sítio do vosso encontro quotidiano com Cristo. É no meio das coisas mais materiais da Terra que devemos santificar-nos, servindo Deus e todos os homens."

"Deus chama-vos a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir."

S. Josemaria Escrivá, Homilia pronunciada no campus da Universidade de Navarra, em 8 de Outubro de 1967

26.11.07

"Ofereceu tudo o que possuía..."


«Em verdade vos digo: Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros. Todos eles deram do que lhes sobrava; mas ela, na sua penúria, ofereceu tudo o que possuía para viver».
(Lc 21, 3-4)

"O Senhor não olha à quantidade que Lhe é oferecida, mas ao afecto com que a gente Lhe oferece. Não está a esmola em dar pouco do muito que se tem, mas em fazer o que fez aquela viúva, que deu tudo o que tinha"
S. João Crisóstomo, Hom. sobre Heb, 1.

21.11.07

Um sinal de progresso?

«O amor é eterno enquanto dura. Uma vez que termina, deixa de o ser». Pode parecer brincadeira, mas ouvi esta frase há poucos dias. Juntamente com ela, uma pessoa defendia tão ardentemente o divórcio, que acabou por considerá-lo como um “direito humano”, que devia por esse motivo ser incluído na declaração universal que os enumera.

É interessante reparar que, hoje em dia, o divórcio é considerado por muitas pessoas como uma característica da sociedade moderna. Não o admitir é visto como um absurdo tão grande, que nem merece qualquer tipo de consideração. Tal atitude é considerada como completamente intolerante e seria similar a desejar, por exemplo, a restauração da escravatura. Não se pode dialogar com as pessoas que pensam assim. Seria um retrocesso na modernização e humanização da nossa sociedade.

O próprio Código de Direito Civil não inclui a possibilidade de duas pessoas se casarem indissoluvelmente. Seria uma aberração. Tal visão do casamento está restringida a indivíduos com “sensibilidade religiosa”, sem que isto tenha nada que ver com a vida das pessoas consideradas maduras e normais.

De acordo com a mentalidade actual, o divórcio é um sinal de progresso, um passo em frente para a felicidade de uma sociedade. A indissolubilidade do matrimónio é vista por muita gente como um “capricho” da Igreja Católica, que com esta e outras atitudes parece ter perdido definitivamente o “comboio da modernização”.

Mas será que o divórcio é verdadeiramente um sinal de progresso? Será que a sua aprovação na lei civil gerou de verdade uma libertação? Gerou maior felicidade na vida das pessoas?

Sempre encontraremos algumas pessoas que dizem que sim. Parecem ser uma minoria e geralmente não possuem um conceito muito claro do que significa a felicidade. Para muitas pessoas a resposta é não. O divórcio não gerou felicidade. Gerou uma certa desistência de ser feliz, uma consciência de que tal palavra parece ser um objectivo inalcançável.

Isso porque, como diz C. Burke, a mentalidade divorcista produziu um modo comercial de encarar o casamento. Passou a tratar-se de um “negócio” com riscos, mas com a garantia de que, caso não nos sintamos satisfeitos, a nossa liberdade ser-nos-á restituída como se nada tivesse acontecido.

É a mentalidade de experimentar para ver se nos serve. Ninguém discute que esta lógica é fantástica quando se trata de comprarmos roupa. No entanto, para um casamento, ter esta mentalidade é estabelecer bases movediças que levam seguramente a um rotundo fracasso matrimonial.

Fazendo um balanço dos últimos anos, vemos como o divórcio gera cada vez mais divórcio. Estamos a chegar à conclusão de que, neste caso, o remédio é pior do que a doença. E assim como a melhor solução para uma dor de cabeça não é cortá-la (felizmente há outras soluções), a melhor solução para os problemas que surjam num casamento não é acabar com ele.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

19.11.07

Assembleia Geral do Clero de Lamego - Apontamentos


No dia 17 de Novembro, realizou-se a Assembleia Geral do Clero da Diocese de Lamego, convocada pelo Sr. D. Jacinto Botelho, Bispo da Diocese.

O conteúdo deste post inclui as notas que tomei na Assembleia e, por isso, são da minha exclusiva responsabilidade, não sendo, por isso, uma versão oficial da mesma, que será, concerteza, dada pelo Secretariado do Conselho de Presbíteros da nossa Diocese e pelo jornal oficial da Diocese, a "Voz de Lamego".

Pouco passava das 10h da manhã, quando, no Seminário Maior de Lamego, tiveram início os trabalhos da Assembleia Dioceseana do clero da Diocese de Lamego, que começou com a Hora Intermédia, à qual presidiu o Sr. Bispo. Depois da leitura breve, o Sr. D. Jacinto teve uma primeira intervenção. Começou por afirmar que a Assembleia se reunia num momento verdadeiramente providencial, pois decorria poucos dias depois da visita ad limina, decorria na Semana de Oração pelas Vocações e dos Seminários e a poucos dias da celebração do Dia da Igreja Diocesana. Citando o Santo Padre João Paulo II, o Sr. D. Jacinto referiu que a missão do Bispo é ser "princípio e sinal de comunhão, serdes dela artífices pacientes e perseverantes (...)É no seio dos vossos Presbitérios que se prolongará a edificação da comunhão eclesial." E era com esse auspício e nesse espírito, de comunhão do Prelado com os seus sacerdotes e do presbitério entre si, que a Assembleia fazia sentido. E, continuando a citar o Santo Padre, o Sr. D. Jacinto continuou: "Para ser afectiva e efectiva ao mesmo tempo, essa comunhão deve ser procurada e cultivada cada dia. Ela exige esforços de parte a parte e não raro a superação de barreiras e resistências. O testemunho claro e visível desta comunhão é portador de estímulos para a comunhão a outros níveis."
Referindo-se, depois, ao discurso que o Papa Bento XVI dirigiu à Conferência Episcopal Portuguesa, o Sr. Bispo destacou que "a eclesiologia da comunhão na senda do Concílio, à qual a Igreja portuguesa se sente particularmente interpelada na sequência do Grande Jubileu, é a rota certa a seguir".
Por conseguinte, e uma vez que no próximo ano celebra as bodas de ouro sacerdotais, o Sr. Bispo decidiu convidar todos os sacerdotes a tomarem uma refeição consigo, no Paço Episcopal e decidiu, também, participar mais activamente nas estruturas de comunhão na Diocese, marcando presença, por exemplo, nas reuniões arciprestais que reúnem, mensalmente, os sacerdotes.

Depois de terminada a Hora Intermédia, o Sr. Bispo passou a resumir a visita ad limina que o Episcopado português realizou recentemente. Fez um resumo das principais actividades que o ocuparam nos dias em que esteve em Roma, com especial relevo, o encontro pessoal com o Santo Padre. Sobre esse encontro, o Sr. D. Jacinto revelou que o Papa foi muito acolhedor. Bento XVI pediu ao Sr. D. Jacinto que indicasse no mapa de Portugal onde se situa Lamego e o Sr. Bispo pediu a Sua Santidade que desse uma benção especial aos Sacerdotes, Seminários e famílias da sua Diocese, pedido ao qual o Santo Padre acedeu de boa vontade.

Sobre esses dias, o Sr. D. Jacinto referiu que, na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, foi pedido aos Bispos portugueses que fosse valorizado, de modo especial, o Dia do Consagrado (2 de Fevereiro). Na Congregação para a Doutrina da Fé, foi pedido ao episcopado luso que promovam, entre os fiéis, a consciência que o Magistério, nos temas de fé e da moral, não são uma opinião no meio de muitas, mas sim guia seguro do modo de agir dos fiéis.

Depois da intervenção do Sr. Bispo, por volta das 11.00h, o Sr. Pe. José Abrunhosa apresentou o Centro de Estudos Sócio-Pastorais (CESP) da Diocese de Lamego.
O CESP, criado recentemente, foi criado para estudar a realidade da Diocese tendo em vista serem encontradas soluções que permitam uma acção pastoral mais eficaz, com uma maior rentabilização de recursos, a curto, médio e longo prazo.

Nascido do Conselho de Presbíteros, e desejado pelo Conselho dos Arciprestes, este Centro tem os seguintes pressupostos: a realidade da diocese está a mudar rapidamente; a desertificaçao das paroquias; o aumento do indiferentismo religioso e a consequente diminuição da prática religiosa; o secularismo que aumenta nos nossos meios e a debilidade da fé dos nossos cristãos, que possuem pouca formação religiosa e espiritual e dão pouco testemunho.

Com estes pressupostos, o Centro de Estudos Sócio-Pastorais pretende: encontrar uma maior coerência em relação aos meios da acção pastoral; rever a qualidade da evangelização; a coerencia dos espaços pastorais existentes em relação à realidade social da Diocese.

Em seguida, tomou a palavra o Sr. Pe. Paulo Alves, Vice- Reitor do Seminário Menor de Resende e coordenador Científico deste Centro, que passou a explicar o modo de funcionamento do CESP.

O inquérito que se está a fazer, e que foi iniciado nas Paróquias de Resende e da Beselga, que serviram de amostra, tem três níveis: paroquial, arciprestal e diocesano.

A nível paroquial, pretende-se recolher os dados relativos: à população existente (número de habitantes, fogos, eleitores, nascimentos, casamentos e divórcios; estes dados serão facultados pelos Serviços de Registo e Notariado); ao número de Baptismos, Confirmações, Matrimónios e Funerais desde 1980 até à presente data, o número de catequistas e de crianças que frequentam a catequese; ao número de elementos do Conselho Pastoral e do Conselho Económico; e outros dados mais.

Os dados das Paróquias serão, depois, tratados a nível do Arciprestado e da Diocese.

Foram apresentados dois casos práticos, nos quais já foi feita a recolha de dados: as Paróquias de Resende e da Beselga (concelho de Penedono).

O CESP é constituído, actualmente, pelos seguintes elementos:
- Coordenador Geral: Rev. Pe. José Abrunhosa, Pároco de Almacave e Secretário do Conselho de Presbíteros;
- Coordenador Científico: Rev. Pe. Paulo Alves, Vice Reitor do Seminário Menor de Resende;
- Tratamento dos dados: Rev. Pe. Hermínio Lopes, Pároco de Magueija e colaborador nos Serviços Centrais da Diocese;
- Restantes elementos: Dr. Macedo (residente em Ferreiros de Tendais), Rev. Jorge Oliveira (Diácono estagiário na Paróquia de Resende) e o Rev. Filipe Rosa (Diácono estagiário na Paróquia de Penedono).

No final da intervenção do Pe. Paulo Alves, vários sacerdotes deram sugestões ou fizeram algum pedido de esclarecimento de dúvidas.

Ficou ainda estabelecido que os inquéritos, devidamente preenchidos, devem ser enviados ao Pe. Hermínio, para o Paço Episcopal.

Pelas 11.45h, teve início a sessão por grupos. Os sacerdotes presentes (cerca de 70), foram divididos em 4 grupos, por zonas geográficas, para debaterem as seguintes questões:
- Quais as interpelações que se colocam ao presbitério de Lamego, tendo já em conta as palavras que o Santo Padre dirigiu aos Bispos Portugueses, no discurso final da visita «ad limina»?
- Quais as respostas que urge dar às inquietações pastorais da Diocese de Lamego?
- Reconhecendo a importância das Assembleias do Clero, pergunta-se: qual a sua periodicidade? Qual o mês e dia de semana? Quais os temas a tratar? Qual a metodologia a seguir?

Os vários grupos debateram os temas propostos. Em cada Grupo foi eleito um Secretário que tomasse nota das conclusões para, da parte da tarde, serem apresentadas em plenário.

Depois das reuniões de grupo, seguiu-se o almoço, no refeitório do Seminário, findo o qual, houve algum tempo livre.

O plenário reuniu-se por volta das 14.30h. Muitos sacerdotes tiveram que se ausentar, devido aos compromissos pastorais, mas ainda ficou um grupo bastante numeroso de sacerdotes.

No plenário foram apresentadas as várias questões debatidas nos grupos. Foram muitos os temas que foram tocados. Estas questões, depois de postas por escrito, serão enviadas ao Secretário do Conselho de Presbíteros para serem estudadas pelo Sr. Bispo.

Depois de apresentadas as conclusões dos vários grupos, houve ainda tempo para que, os sacerdotes, livremente pudessem interpelar o Sr. Bispo sobre questões que achassem importantes, às quais o Sr. D. Jacinto foi respondendo e dando pistas de solução e de reflexão.

O Sr. Bispo anunciou que vai ser elaborada uma Nota sobre várias questões disciplinares que necessitam uma clarificação. Além disso, revelou que houve uma reunião a nível da Provincia Eclesiástica, para tratar da questão de emolumentos e taxas eclesiásticas, que serão ligeiramente alteradas e que, depois de aprovadas pela Sé Apostólica, entrarão em vigor. Por fim, o Sr. Bispo também pediu que os Sacerdotes participassem no Retiro Espiritual, que decorrerá de 26 a 28 de Dezembro, na Casa de S. José.

Ficou expresso o desejo, por parte de todos, que esta Assembleia se realizasse anualmente.

Créditos
Discurso de João Paulo II ao Episcopado Português (13.05.1982)
Discurso de Bento XVI aos Bispos Portugueses em visita ad Limina
Agência Ecclesia
Asas da Montanha
Theosfera

16.11.07

Discurso do Santo Padre aos Bispos Portugueses

"É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja."

Esta citação, tão usada desde que o Santo Padre a pronunciou aos Rev.os Bispos Portugueses, tem tido as mais diversas interpretações. E há quem não hesite em apontar o dedo acusatório, tentando descobrir a quem quereria o Santo Padre pôr as culpas.

Essa atitude, sobretudo dos que estamos ligados a esta Igreja que é nossa Mãe pode impedir-nos de ver que essa mudança "de estilo de organização (...) e a mendalidade dos seus membros" não começa nos outros, mas sim em nós próprios.

Nesta semana...

... de oração pelas vocações, ouve-se falar muito da missão dos sacerdotes, daquilo que deve ou não fazer, daquilo que é a sua identidade, do modo de formar nos nossos Seminários.

São questões importantes, às quais é necessário dar resposta, não só teológica mas, sobretudo existencial.

No entanto, essas questões não acertam no centro, na resposta última. E a resposta última é que há um só Sacerdote: Jesus Cristo. Desse único sacerdócio participam todos os fiéis pelo baptismo e alguns fiéis pela unção ministerial e a imposição das mãos dos Sucessores dos Apóstolos.

Por isso, sendo necessário que todos imitem a Cristo, o Sacerdote é aquele que torna Jesus no meio do mundo, no meio dos homens.

E, parece-me, é à luz desta realidade fundamental que todas as outras questões ganham o peso e a medida própria. O sacerdote é alter Christus, ipse Christus.

Não me compete a mim opinar sobre como, na prática, deve ser a formação dos seminários. Mas rezo todos os dias para que, aqueles que têm que tomar essas decisões, tomem as decisões certas. Ao meu Bispo, restantes autoridades, irmãos no sacerdócio que têm por missão formar os candidatos ao sacerdócio não falta nem faltará a minha oração e os meus pobres sacrifícios.

14.11.07

Virtudes humanas


«Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta; 16caiu aos pés de Jesus com a face em terra e agradeceu-lhe. Era um samaritano. 17Tomando a palavra, Jesus disse: «Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? 18Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?» 19E disse-lhe: «Levanta-te e vai. A tua fé te salvou.»
(Lc 17, 15-19)

«Jesus não foi indiferente aos pormenores de educação que se têm entre os homens e que expressam a qualidade e a delicadeza interior das pessoas. Assim o manifestou diante de Simão, o fariseu, que não teve com Ele as atenções exigidas habitualmente pela hospitalidade. Com a sua vida e com a sua pregação, revelou apreço pela amizade, pela amabilidade, pela temperança, pelo amor à verdade, pela compreensão, pela lealdade, pela laboriosidade... São numerosos os exemplos e parábolas que refletem o grande valor que o Senhor deu a essas virtudes. E forma os Apóstolos não só nas virtudes da fé e da caridade, mas também na sinceridade e na nobreza3, na ponderação do juízo4, etc. Considera tão importantes essas virtudes humanas que chegará a dizer-lhes: Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me acreditais, como acreditareis se vos falar das celestes?5 Cristo, perfeito Deus e perfeito homem6, dá-nos exemplo desse conjunto de qualidades bem entrelaçadas que qualquer homem deve viver nas suas relações com Deus, com os seus semelhantes e consigo próprio. DEle pôde-se proclamar: Bene omnia fecit7, fez bem todas as coisas; não somente os milagres por meio dos quais manifestou a sua onipotência divina, mas também as ações que compõem a vida corrente. O mesmo se deveria poder afirmar de cada um de nós, que queremos segui-lo no meio do mundo.»
Francisco Fernandez Carvajal, in Falar com Deus

12.11.07

O Santo Padre...

... fez um discurso aos Bispos Portugueses no encerramento da Visita ad limina. É um discurso directo, claro, de alguém que tem sinceras preocupações e esperanças em relação à Igreja Portuguesa.

Não foi um puxão de orelhas, nem está cheio de críticas veladas. Aponta, sim, caminhos a percorrer.

E recordou-nos a todos que, a principal missão da Igreja, não é falar de si mesma, mas sim de Deus.

O surdo regresso da separação

O Governo faz de sonso. O assunto é sério e as consequências graves, mas por razões ideológicas o Executivo anda no "bate e foge".

A 18 de Maio de 2004 foi assinada no Vaticano a nova Concordata entre Portugal e a Santa Sé, aprovada pela Assembleia da República a 16 de Novembro (resolução 74/2004). Desde então... nada. A Concordata tem de ser regulamentada por uma quantidade de diplomas complementares e, enquanto não é, continuam em vigor as regulamentações da anterior Concordata de 1940. Mas o Governo finge-se distraído e actua como se não existissem regras. Os funcionários vão minando e agredindo e, quando os bispos reagem, o primeiro-ministro acode pressuroso assegurando não pretender uma questão religiosa.

A situação é compreensível e até normal. Todos os países crentes têm sempre uma activa minoria anti-religiosa. O ateísmo como a superstição são subprodutos extremos do mesmo tipo de sociedade. Aliás, muito do fervor e zelo que tantos anticlericais põem na sua acção pode ser visto como manifestação de intensa fé mística. Por isso o mundo tem uma longa história deste tipo de embates, aliás profetizados pelo próprio Cristo. Mas em Portugal, curiosamente, ambos os lados aprenderam da maneira mais dura os enormes custos dessa luta. Por isso hoje por cá o combate é surdo e oculto.

Os católicos foram os primeiros a compreender que a reacção violenta tem terríveis prejuízos. O miguelismo, que tentou responder frontalmente à crescente onda jacobina, não só foi derrotado mas gerou a longa e degradante servidão da Igreja sob o jugo liberal na segunda metade de Oitocentos. Com a Lei de Separação da I República foi a vez de maçons e laicistas imporem a sua vontade pela força, tentando erradicar a oposição. O resultado foram 48 anos de exílio e ditadura salazarista. Hoje, finalmente, ambos os lados aprenderam que têm de viver juntos. Isso não impede que, em certos momentos políticos, os mais fervorosos tentem agredir o outro lado. O Governo Sócrates, talvez inspirado pelas tolices de Zapatero, que brinca com o fogo aqui perto, tem-se revelado particularmente virulento.

A Igreja tem em Portugal uma vastíssima acção social, com enormes benefícios para toda a comunidade. Na saúde, educação e imprensa, no património, animação cultural e assistência, no combate à pobreza, solidão e doença, nas prisões, hospitais, forças armadas, nas capelas mortuárias e cemitérios.

A esmagadora maioria das IPSS, creches, ATL, centros de dia e jornais regionais pertencem à Igreja. Uma enorme percentagem das escolas privadas, clínicas, grupos culturais, apoios domiciliários são animados pelos cristãos. Houve tempos em que a fé era simplesmente a vida, sem se dar pela diferença. Hoje, que gostamos de contabilizar essas coisas, a influência da Igreja é literalmente incalculável. Apesar disso, provavelmente por causa disso, a animosidade contra a Igreja permanece palpável, sobretudo em certas épocas.

O método tradicional é o lento estrangulamento. O Estado tributa furiosamente para depois com esse dinheiro fazer mal aquilo que a Igreja faz bem. Entretanto os inspectores paralisam as instituições católicas com regulamentos e exigências tolas.

Este método tem a vantagem de fingir que se faz política social e promoção da qualidade. O mais incrível é a flagrante insensibilidade para com a sorte e o bem-estar dos pobres, doentes, crianças, necessitados, que se diz proteger mas são usados como joguete na campanha ideológica.

Ultimamente avançou-se para um confronto mais aberto. Em nome da igualdade abstracta das religiões oprime-se a única que tem real expressão social. Os capelães hospitalares, prisionais e castrenses fazem um serviço inestimável e insubstituível. O Estado decide intrometer-se na intimidade das pessoas só para complicar e estragar.

A Igreja beneficia com estas perseguições. Mesmo hipócritas e veladas, elas desinstalam-na, estimulam-na, purificam-na. Se não fosse o enorme sofrimento que causam nos pobres, até se deviam aplaudir estes ataques.

João César das Neves, in Diário de Notícias

9.11.07

A questão sacerdotal

No Comunicado final da última Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, decorrida em Roma, no Pontifício Colégio Português, houve um ponto que me deixou algo perplexo:

3. A Assembleia procedeu a uma reflexão sobre os desafios que se colocam à Igreja em Portugal no próximo quinquénio. (...) Nas intervenções foram lançadas as prioridades que se vislumbram no horizonte e interligam a vida interna da Igreja com a sociedade. Entre estas apontaram: (...) clarificação da missão específica dos padres. (...)»

O Concílio Vaticano II já ficou para trás há mais de 40 anos. Foi, precisamente, no período pós conciliar que mais se falou da questão "identidade sacerdotal". Passado este tempo, os nossos Bispos ainda sentem que esta é uma questão importante, logo, parece ser uma questão à qual muitos sacerdotes não encontraram a resposta adequada.

A este propósito, recomendo uma leitura do Directório para o Ministério e Vida dos Presbíteros, cujo primeiro capítulo é dedicado ao tema: "Identidade do Sacerdote".