22.9.06

As reacções da imprensa ao discurso do Santo Padre

"O nosso, é um tempo em que se espera do cristão que louve todos os credos menos o seu." (G. K. Chesterton, Illustrated London News, 11.08.1928)

Nas recentes polémicas sobre o Discurso do Santo Padre do passado dia 12 de Setembro e as consequentes reacções, parece-me que a crítica da imprensa ao Papa se pode concentrar em três grandes questões.

1. Segundo os jornalistas, o Papa não pode condenar a violência como meio de difusão das religiões pois os cristãos fizeram o mesmo.

A mim, parece-me evidente que houve cristãos, alguns dos quais pertenciam à hierarquia, que misturaram as suas responsabilidades espirituais com poderes e ambições temporais. Isso é um dado histórico evidente. Mas a própria Igreja reconheceu os seus erros, foi pondo os meios para que isso não voltasse a acontecer e chegou, inclusivé, a pedir publicamente perdão, a Deus e aos homens, dos erros cometidos no passado.
Aquilo que os jornalistas exigem ao Papa não o fazem eles próprios, pois tantas vezes é a Igreja atacada sem motivo e os meios de comunicação social são incapazes de, nessas situações, fazerem um justo mea culpa.
Se a Igreja e os seus membros continuassem, como no passado, a usar a violência para propagar a fé que professam, então seria incoerente, por parte do Santo Padre ter dito o que disse. Ora, é um dado de facto que, nos países de tradição cristã é onde existe uma separação mais clara e legislada entre a Igreja e a autoridade civil, e onde existem os intrumentos jurídicos mais avançados para que essa separação seja mantida. Os erros foram identificados, corrigidos e foi pedido perdão por eles, por isso a opinião da imprensa peca por injustiça.

2. O Papa cometeu um erro, pois deveria ter previsto as consequências da citação que fez e das suas declarações.

Concerteza, o Santo Padre, antes de proferir o discurso, mediu bem cada uma das palavras que usou. Ao contrário do que acontecia com o seu predecessor, quem escreve tudo aquilo que lê é o próprio Papa (João Paulo II, em muitas ocasiões, pedia aos seus colaboradores que lhe escrevessem os textos depois de lhes indicar o que queria dizer e que ideias queria transmitir. Apesar de ser o autor formal dos textos, o Papa João Paulo II não era, muitas vezes, o autor material do mesmo).
Na opinião da imprensa, o Santo Padre deveria ter-se "auto-censurado" por medo dos fanáticos.
É verdade que o Papa Bento XVI pode ter pecado por excesso de confiança ao pensar que poderia encontrar interlocutores adequados, até entre os muçulmanos, para um diálogo "franco e sincero". Até ao momento, quem está a fazer barulho são os radicais. Esperemos que os ventos mudem.

3. O Papa deu um passo atrás no diálogo que o seu predecessor, o venerado João Paulo II, estabeleceu com as várias religiões.

Quem faz este tipo de comparações são os mesmos que comparavam João Paulo II com Paulo VI para concluir que este último tinha sido melhor, ou que comparavam Paulo VI com João XXIII para concluir que os predecessores são sempre melhores que os que lhes sucedem... Mas só porque, provavelmente, já estão na Casa do Pai.
O Santo Padre pôs o dedo na ferida: um verdadeiro diálogo só se pode fazer quando as premissas se baseiam na verdade, sendo esse o lema que ele próprio escolheu, ainda como jovem Bispo: "Cooperator veritatis", Cooperador da verdade.