11.6.06

Via provocationis e o Código Da Vinci

Encontrei este excelente post do Pe. João António, sacerdote que muito admiro e respeito, e do qual já tive a oportunidade de ouvir e de aprender.
"1. Não sou dos que se preocupam demasiado com o êxito do Código da Vinci.
Não me diverti com a história nem achei original o argumento. Acresce que o Código se descodifica no subtítulo: romance!
Não é, por conseguinte, uma obra de ficção que vai abalar as convicções mais fundas. Se o abalo existe, então é porque a solidez das convicções não era suficiente. Em qualquer caso, temos de lidar com estas coisas com serenidade, aprendendo a temperá-las com algum humor.
Aliás, se aplicássemos o filão que ele usa na sua obra (ver algo de obscuro por detrás daquilo que nos aparece pela frente), até poderíamos dizer que Dan Brown será um católico fervoroso, porventura membro do Opus Dei!
É que com o seu Código da Vinci (e com o filme que nele se inspira), conseguiu que muita gente se interessasse pela figura de Cristo e dos Apóstolos, pela Igreja e, mais concretamente, pela prelatura fundada por S. Josemaria Escrivá. Neste aspecto, alcançou ele mais do que nós, padres, com a pregação, a catequese, as reuniões ou os cursos. São muitos os que, lendo o livro e vendo o filme, se aproximam com perguntas de todo o género e inquietações de toda a espécie.

2. Dan Brown não será católico e acumula até vastas imprecisões sobre o que se passa na Igreja. Umberto Eco (que não é propriamente um crente) recusou encontrar-se com ele para não dar cobertura a tais imprecisões.
Mas o certo é que trouxe o fenómeno religioso e o facto cristão para o top das vendas e para o centro do debate. Foi a partir da sua obra que muitos teólogos e exegetas começaram a ser requisitados como nunca a fim de partilharem com o grande público as suas pesquisas.
O que tudo isto mostra é que não foi Dan Brown que trouxe algo de novo. O que é novo é o tempo. O que é nova é a sensibilidade. É que a nossa época mostra-se (quiçá como nenhuma outra) deveras propensa à suspeita, à provocação.
Regra geral, partimos do princípio de que há sempre algo que nos querem esconder. Nem a realidade escapa a esta atmosfera: esconde-nos, ela também, alguma coisa. A própria arte não é desvelamento: é cifra, código. Não admira que, neste contexto, demos mais crédito ao irreal que ao real.
Já nos anos 60 do século passado, Xavier Zubiri chamava a atenção para a capacidade que o homem tem de «forjar o irreal». O problema — como muito bem ele notou — é que, estando o homem no mundo, o irreal por ele forjado emerge também «dentro do mundo real».
Ou seja, é muito difícil escrutinar e discernir entre o real e o irreal. A páginas tantas, tomamos o real por irreal e o irreal por real. As fronteiras diluem-se e a distinção acaba por se apagar completamente. Como encarar a situação? Ficar de fora?

3. Classicamente eram três as vias para o homem chegar a Deus por si mesmo. A via afirmationis destacava a afinidade entre Deus e o mundo. A via negationis apostava no contraste fazendo assim sobressair a infinitude divina. A chamada via eminentiae olhava para as perfeições do homem e deduzia que, em Deus, elas se encontravam de forma sublime, eminente.
Hoje em dia, tem cada vez maior acolhimento aquela que poderíamos denominar via provocationis. Não será a mais correcta, nem tão-pouco a mais viável, mas não há dúvida de que se tem revelado tremendamente eficaz.
Os factos são teimosos e os resultados estão à vista. Anda um teólogo, um exegeta, um bispo, um padre, um missionário ou um catequista a anunciar Jesus Cristo e, em vastos meios, a indiferença é o sentimento generalizado. Aparece uma ficção do teor do Código da Vinci e a indiferença abre caminho a uma curiosidade descontrolada. E não falta até quem procure o teólogo, o exegeta, o bispo, o padre, o missionário e o catequista para perguntar, para contestar, para dialogar.

4. É a melhor via? É uma via. E se é a que tem mais transeuntes, não os podemos deixar sozinhos, sem interlocutor. O cristão só tem um lugar: o lugar onde o homem se encontra…"