19.6.06

Pausa



Encontrei esta lindíssima imagem na Signatura Apostólica.

Com este post, este blog entra numa mini pausa. Regresso a Portugal, tomo conta do novo encargo pastoral que o meu santo Bispo me confiou e, por isso, durante algum tempo, não terei tempo para o o blog.

Deixo os melhores cumprimentos a quem for passando e o pedido que rezem por este pobre pecador.

15.6.06

Santa Missa

"Todas as boas obras reunidas não equivalem ao santo sacrifício da Missa, porque elas são obras dos homens, e a missa é obra de Deus. O martírio não é nada em comparação: é o sacrifício que o homem fez a Deus da sua vida; a missa é o sacrifício que Deus fez ao homem do seu corpo e do seu sangue."
S. João Maria Vianney, Pensées choisies du saint curé d’Ars et petites fleurs d’Ars, Téqui, Paris, p. 71

"Deus apresenta-se a nós sob a insignificante aparência de um pedaço de pão, porque não se revela na sua glória, porque não se impõe irresistivelmente, porque enfim, desliza sobre a nossa vida como uma sombra, ao invés de fazer retumbar o seu poder sobre as coisas… .
Quantas almas oprimidas pela dúvida, porque Deus não se mostra como elas esperam.”
Jacques Leclerq, Seguindo o ano liturgico, p. 100

14.6.06

Uma questão de Amor

Lembremo-nos da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever - ou seja o que for - obriga-as a afastar-se uma da outra. Não podem, portanto, continuar uma junto das outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja, é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma fotografia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

Ora o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar a sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a alma e a sua Divindade.
S. Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, 83

13.6.06

Roteiro turístico

E porque nem só de doutrina vive este blog, hoje fica a sugestão de uma paragem obrigatória para quem visita Roma.

Chama-se Instituto de Santo António dos Portugueses, fica situado no centro histórico da cidade.
Existe, juridicamente, desde o séc. XIII. Nasceu da boa vontade de uma senhora e de um bispo. Ao longo dos anos, foi hospedagem, hospital, local de encontro entre a cultura portuguesa e a cultura italiana.

A Igreja, dedicada a Santo António, é uma jóia plantada no centro de Roma e em nada fica a dever, em beleza, às outras Igrejas que lhe estão perto.



Desde 1995, Reitor do Instituto é o Mons. Agostinho Borges, da Diocese de Vila Real, que tem desempenhado um trabalho excepcional, seja na promoção da cultura portuguesa, seja no acolhimento a tantas e tantas pessoas que vão passando por aquela Igreja.

Sou testemunha da evolução qualitativa do Instituto ao longo dos últimos anos, evolução na qual participam aqueles que lá trabalham todos os dias (o Dr. Antonio Cimini, a Cidália, a Engrácia, a Cipriana...) e que fazem com que, imediatamente nos sintamos em casa.

Deixo o meu agradecimento e reconhecimento ao Instituto e ao seu Reitor pelo facto de terem jogado um papel importante na minha formação a caminho do sacerdócio e pelo exemplo de hospitalidade que levo no coração.

Vem isto a propósito de ser dia de Santo António, padroeiro da Igreja. O Instituto é um óptimo exemplo do diálogo entre fé e cultura no qual a Igreja tem que ter uma palavra a dizer.

Dados:
Instituto de Santo António dos Portugueses
Via dei Portoghesi, 2
00186 Roma, Itália
Tlf.: (0039) 0668802496

Email: reitor@ipsa-roma.com

12.6.06

A verdade e a justiça

«O mundo tem necessidade da verdade que é justiça, e da justiça que é verdade»
Pio XII, Alocução à Sagrada Rota Romana, 1.10.1942, n. 5
A verdade não se torna força da paz senão através da justiça. A Sagrada escritura, falando dos tempos messiânicos, assevera por um lado que a justiça é fonte e companheira da paz: nos seus dias florirá a justiça e a abundância da paz (Sl. 72, 7), e por outro, sublinha repetidamente o vínculo que associa a verdade à justiça: Da terra brotará a verdade, do céu há-de olhar a justiça (Sl. 85, 12) e ainda: Governará a terra com justiça e os povos com a sua verdade (Sl. 96, 13).
João Paulo II, Alocução à Sagrada Rota Romana, 4 de Fevereiro de 1980, n. 1

11.6.06

Eu e Tu

Não sou modelo para ninguém. Nunca o fui.

Há pessoas muito mais trabalhadoras, inteligentes, santas, cuja oração é muito mais eficaz do que a minha e cujo apostolado é muito mais fecundo.

Todos os dias toco de perto a minha miséria, os meus defeitos. Sei o que deveria fazer, mas muitas vezes escondo-me no meu mundo. Devia amar-Te acima de tudo, amar os outros como tu amas, não só os meus amigos, mas também aquelas pessoas que me incomodam, que tantas vezes se aproximam de mim, na esperança de ver um raio da Tua luz, e acabam por tocar as trevas da minha indiferença.

É ao contemplar o Teu Amor e o meu egoísmo, a Tua misericórdia e o meu juizo, tantas vezes precipitado sobre as situações e as pessoas, que não preciso de nenhuma lei que me mande confessar.

Não me confesso por sentir a necessidade de me sentir perdoado. Confesso-me pois toco o meu pecado constantemente. Na confissão, apesar de todas as partes serem importantes, procuro renovar sempre o arrependimento, para não cair no perigo da rotina. Confesso-me porque foste Tu a pedir a todos, e não só a alguns, que nos convertessemos, que acolhessemos o vinho novo do Teu amor em odres novos.

Por isso, não preciso de nenhuma lei que me mande confessar regularmente. Basta olhar para a minha vida de pobre pecador e contemplar o Teu infinito amor.

Via provocationis e o Código Da Vinci

Encontrei este excelente post do Pe. João António, sacerdote que muito admiro e respeito, e do qual já tive a oportunidade de ouvir e de aprender.
"1. Não sou dos que se preocupam demasiado com o êxito do Código da Vinci.
Não me diverti com a história nem achei original o argumento. Acresce que o Código se descodifica no subtítulo: romance!
Não é, por conseguinte, uma obra de ficção que vai abalar as convicções mais fundas. Se o abalo existe, então é porque a solidez das convicções não era suficiente. Em qualquer caso, temos de lidar com estas coisas com serenidade, aprendendo a temperá-las com algum humor.
Aliás, se aplicássemos o filão que ele usa na sua obra (ver algo de obscuro por detrás daquilo que nos aparece pela frente), até poderíamos dizer que Dan Brown será um católico fervoroso, porventura membro do Opus Dei!
É que com o seu Código da Vinci (e com o filme que nele se inspira), conseguiu que muita gente se interessasse pela figura de Cristo e dos Apóstolos, pela Igreja e, mais concretamente, pela prelatura fundada por S. Josemaria Escrivá. Neste aspecto, alcançou ele mais do que nós, padres, com a pregação, a catequese, as reuniões ou os cursos. São muitos os que, lendo o livro e vendo o filme, se aproximam com perguntas de todo o género e inquietações de toda a espécie.

2. Dan Brown não será católico e acumula até vastas imprecisões sobre o que se passa na Igreja. Umberto Eco (que não é propriamente um crente) recusou encontrar-se com ele para não dar cobertura a tais imprecisões.
Mas o certo é que trouxe o fenómeno religioso e o facto cristão para o top das vendas e para o centro do debate. Foi a partir da sua obra que muitos teólogos e exegetas começaram a ser requisitados como nunca a fim de partilharem com o grande público as suas pesquisas.
O que tudo isto mostra é que não foi Dan Brown que trouxe algo de novo. O que é novo é o tempo. O que é nova é a sensibilidade. É que a nossa época mostra-se (quiçá como nenhuma outra) deveras propensa à suspeita, à provocação.
Regra geral, partimos do princípio de que há sempre algo que nos querem esconder. Nem a realidade escapa a esta atmosfera: esconde-nos, ela também, alguma coisa. A própria arte não é desvelamento: é cifra, código. Não admira que, neste contexto, demos mais crédito ao irreal que ao real.
Já nos anos 60 do século passado, Xavier Zubiri chamava a atenção para a capacidade que o homem tem de «forjar o irreal». O problema — como muito bem ele notou — é que, estando o homem no mundo, o irreal por ele forjado emerge também «dentro do mundo real».
Ou seja, é muito difícil escrutinar e discernir entre o real e o irreal. A páginas tantas, tomamos o real por irreal e o irreal por real. As fronteiras diluem-se e a distinção acaba por se apagar completamente. Como encarar a situação? Ficar de fora?

3. Classicamente eram três as vias para o homem chegar a Deus por si mesmo. A via afirmationis destacava a afinidade entre Deus e o mundo. A via negationis apostava no contraste fazendo assim sobressair a infinitude divina. A chamada via eminentiae olhava para as perfeições do homem e deduzia que, em Deus, elas se encontravam de forma sublime, eminente.
Hoje em dia, tem cada vez maior acolhimento aquela que poderíamos denominar via provocationis. Não será a mais correcta, nem tão-pouco a mais viável, mas não há dúvida de que se tem revelado tremendamente eficaz.
Os factos são teimosos e os resultados estão à vista. Anda um teólogo, um exegeta, um bispo, um padre, um missionário ou um catequista a anunciar Jesus Cristo e, em vastos meios, a indiferença é o sentimento generalizado. Aparece uma ficção do teor do Código da Vinci e a indiferença abre caminho a uma curiosidade descontrolada. E não falta até quem procure o teólogo, o exegeta, o bispo, o padre, o missionário e o catequista para perguntar, para contestar, para dialogar.

4. É a melhor via? É uma via. E se é a que tem mais transeuntes, não os podemos deixar sozinhos, sem interlocutor. O cristão só tem um lugar: o lugar onde o homem se encontra…"

10.6.06

Nomeação do novo Bispo de Viseu

O Pe. Ilídio Leandro, sacerdote do clero da Diocese de Viseu, foi nomeado Bispo da mesma Diocese, sucendendo, deste modo, a D. António Marto.
A ordenação episcopal será no próximo dia 23 de Julho, pelas 16.30h, na Sé de Viseu.
Desejam-se as maiores felicidades ao novo Bispo no desempenho do serviço que hoje lhe é confiado.
Links:

Dia de Portugal

Hoje comemora-se o dia de Portugal e das comunidades portuguesas.

Liturgicamente, é o dia do Santo Anjo de Portugal.

"Sendo o Anjo o celeste despertador dos homens e dos povos para a consciência dos valores mais altos que devem reger a vida e o destino da História, na medida em que nos afastámos da ideia de que temos um Anjo connosco, e logo desde os alvores de Reino, ao qual devemos atenção, respeito, devoção, nos fomos desviando de nós próprios.

Por alguma razão Afonso Henriques foi baptizado na capelinha de S. Miguel em Guimarães, para fazer dele o Anjo protector de Portugal, a pontos de, em Coimbra, a Universidade, mãe do nosso pensamento e da nossa cultura, nos melhores e mais altos e puros tempos da nossa História pátria, ser o Anjo apontado como patrono, figurando no selo - chancela daquela escola-mater.

Leão XIII, ajoelhado um dia diante do sacrário, sentiu um certo baque no coração, e logo ali pediu com que escrever; e, mesmo no genuflexório, redigiu uma oração que antigamente se dizia no fim de todas as missas e que rezava assim: «S. Miguel Arcanjo e defendei-nos nesta luta contra todas as insídias e ciladas do inimigo»...

Não será que, deixando de se rezar a oração, se perdeu também, de algum modo, o sentido do Anjo?

Fátima veio recordar-nos mais uma vez que o Anjo de Portugal faz parte da nossa História. E Pio XII mandou inserir no calendário a comemoração do Anjo, precisamente no dia de Portugal, 10 de Junho.

Foi tradição em Portugal, desde tempos antigos, que a festa e procissão do Anjo se equiparasse em luzimento, esplendor e devoção à do próprio Corpo de Deus. Já D. Manuel I, a instâncias do povo, da nobreza e do clero, pediu à Santa Sé a instituição de uma festa, que passaria a ser promovida a expensas da própria Câmara. E Leão X assim o determinou, realçando liturgicamente, e conforme a devoção do povo português o pedia, a solenidade do nosso Anjo Guardador.
Pode ter-se perdido Portugal do seu Anjo, mas o Anjo não se perdeu de Portugal."

Manuel Ferreira da Silva,
Editorial da Agência Eclésia, 28.05.2004

História

A Igreja, em toda a sua história, sempre sofreu ataques, perseguições, calúnias e incompreensões. Passou por cismas, superou a fraqueza dos próprios membros, teve que lutar, muitas vezes, pela própria independência.
Não sou triunfalista. Se ainda hoje a Igreja subsiste, não é por mérito dos homens, mas sim por dom de Deus.

9.6.06

A capacidade humana

"A Igreja reconhece, com plena sinceridade e sem reservas, a capacidade humana e, portanto, os grandes feitos, as conquistas que o homem tem capacidade de produzir. Deus - como sublinhou Bento XVI na encíclica Deus caritas est - não é um adversário do homem, nem teme o seu poder.Pelo contrário, foi Ele que dotou o ser humano da sua capacidade e da sua força. E a Igreja reconhece-o e proclama-o, convidando todas as gerações a esforçar-se por conseguir que o mundo seja cada vez mais humano.

Mas, ao mesmo tempo, é necessário que a capacidade que o ser humano tem seja orientada para o bem, e que o homem seja consciente dos seus limites e se abra ao reconhecimento do valor dos outros, de cada pessoa humana, inclusivé as menos dotadas, e, em última análise, de Deus."

Pontificio Conselho para a Família, Família e procriação humana, 13.05.2006, n. 7.

8.6.06

Tijolos

Os últimos tijolos são sempre os mais difíceis de pôr.
Estou a acabar uma fase da minha vida, para, de imediato, começar outra. Sei o que deixo para trás, mas não sei o que me espera.
Continuará a ser como sempre: "O Senhor guia os cegos pelos caminhos que eles não conhecem".
E do coração brota a oração:
"Domine, ut videam! Domine, ut sit!"

7.6.06

A liberdade

"Na parábola do filho pródigo estão ligados os temas da vida e da liberdade.

O filho que parte de casa quer a vida e, por isso, deseja ser totalmente livre. Ser livre significa, segundo a sua visão, poder fazer tudo aquilo que quer; não ter que aceitar qualquer critério fora ao acima de si próprio. Seguir somente o próprio desejo e a própria vontade. Quem vive deste modo, rapidamente se confrontará com o outro, que deseja viver desse modo. A consequência natural deste conceito egoístico de liberdade é a violência, a destruição mútua da liberdade e da vida. (...)

A liberdade e a responsabilidade vão a par e passo. A verdadeira liberdade demonstra-se na responsabilidade, num modo de agir que assume a corresponsabilidade pelo mundo, por si próprio e pelos outros.

Livre é o filho, a quem pertencem as coisas e que, portanto, não permite que seja destruída. (...) O Espírito Santo torna-nos filhos e filhas de Deus. Ele eleva-nos à própria responsabilidade de Deus pelo mundo, por toda a humanidade. Ensinanos a olhar o mundo, o outro e nós próprios com os mesmos olhos de Deus. Não fazemos o bem como escravos, que não são livres de agir de outro modo, mas fazemos o bem porque trazemos dentro de nós a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e, portanto, também as suas criaturas."

Bento XVI,
Homilia na Celebração das Vésperas da Vigília da Pentecostes, 05.06.2006

Familia e procriação humana

Assim se chama o documento do Pontifício Conselho para a Família que ontem foi tornado público.
Ao contrário do que foi escrito, este documento surge, não tanto por causa do encontro das famílias, que terá lugar em Valência (e que tem várias catequeses próprias de preparação que podem ser encontradas aqui), mas sobretudo porque, desde há cerca de um ano e meio que, sobretudo na Europa, se está a legislar sobre toda a questão da procriação. A quantidade de pedidos de médicos, investigadores e pessoal ligado à saúde, bem como de pessoas simples ao Pontifício Conselho para a Família a pedir esclarecimentos e informações sobre os problemas morais ligados à procriação médica assistida levou este organismo a escrever este documento de cerca de 60 páginas que ainda não está disponível na internet, mas somente em papel.

6.6.06

"Senhor, que queres que eu faça?"

Enquanto me preparava para o sacerdócio, encontrei um texto que respondia a uma inquietação, para mim profunda, que trazia dentro de mim: o que quer a Igreja de mim, enquanto sacerdote? O que fazer, para ser fiel? É verdade que a graça de Deus é infinita e não permitirá que eu O abandone, mas eu, da minha parte, que tenho que fazer para não O abandonar?

E a resposta a estas inquietações encontrei-as, em parte, num texto que frequentemente uso na minha oração pessoal e no meu exame de consciência.

"É necessário que o presbítero programe a sua vida de oração de maneira a incluir:
a celebração eucarística quotidiana, com adequada preparação e acção de graças;
a confissão frequente e a direcção espiritual já praticada no seminário;
a celebração íntegra e fervorosa da liturgia das horas, à qual é quotidianamente obrigado;
O exame de consciência;
a oração mental propriamente dita;
a lectio divina;
os momentos prolongados de silêncio e de colóquio, sobretudo nos Exercícios e retiros Espirituais periódicos;
as preciosas expressões da devoção mariana como o Rosário;
a « Via Sacra »e os outros pios exercícios;
a frutuosa leitura hagiográfica."

"Cada ano, como sinal do constante desejo de fidelidade, durante a Santa Missa crismal de Quinta Feira Santa, os presbíteros renovem perante o Bispo e juntamente com ele as promessas feitas no momento da ordenação."

"O cuidado da vida espiritual deve ser considerado pelo sacerdote como um dever que infunde alegria e ainda como um direito dos fiéis que procuram nele, consciente ou in-conscientemente, o homem de Deus, o conselheiro, o mediador de paz, o amigo fiel e prudente, o guia seguro em quem as pessoas confiam nos momentos duros da vida para encontrar conforto e segurança."

Congregação para o Clero, Directório para a vida e ministério dos presbíteros, 31.01.1994

Não se trata de fazer um conjunto de coisas e magicamente se prossegue o caminho, como se fossemos seres insensíveis. Os sacerdotes somos de carne e osso, com um coração humano. Somos, como todos os outros homens, capazes do melhor e do pior.
Trata-se sim de usar os meios à nossa disposição para sermos pessoas de oração, de presença de Deus.

Não se trata de fazer, mas sim de ser. Mas essas duas dimensões, ser e fazer, são inseparáveis. Rezo para ser um homem de oração, não por mim, mas sim porque os fiéis têm direito a ver em mim um homem de Deus.

5.6.06

Super omnia

"In fide, unitas; in dubiis, libertas; super omnia, caritas."

Frase atribiuda a S. Agostinho

II Congresso Mundial de Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades

De 31 de Maio a 2 de Junho decorreu, em Rocca di Papa, uma localidade perto do Lago de Albano, o II Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades, onde se inserem movimentos como os Folcolares, os vários movimentos carismáticos e o Caminho Neocatecumenal, entre muitos, muitos outros.
Na mensagem que lhes enviou nessa ocasião, o Santo Padre escreveu quanto segue. Tomei a liberdade de fazer uma tradução do italiano, pois ainda não está disponível o texto em português.
O tema deste Congresso foi: "A beleza de ser cristão e a alegria de o comunicar"
"Caros amigos dos Movimentos: fazei com que cada um dos vossos Movimentos sejam sempre escolas de comunhão, companhias no caminho no qual se aprende a viver na verdade e no amor que Cristo nos revelou e que nos chegou pelo exemplo dos Apóstolos, nesta grande família dos seus discípulos. Possais vós ouvir a recomendação de Jesus: "Resplenda a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas obras e dêem graças ao vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 16).
Levai a luz de Cristo a todos os ambientes sociais e culturais em que viveis. O fervor missionário é a prova da radical experiência de fidelidade, renovada dia após dia, ao próprio carisma, que não cai no perigo de olhar egoisticamente para si próprio.
Iluminai a escuridão de um mundo que vive ao sabor do vento das mensagens contraditórias das ideologias. Não há beleza que valha se não houver uma verdade a reconhecer e a seguir, se o amor é confundido com um sentimento passageiro, se a felicidade se transforma numa miragem à qual não se pode chegar, se a liberdade se transforma em instinto.
Quanto mal pode provocar na vida do homem e das nações o desejo de poder, do consumo, do prazer! Levai, a este mundo turbado, o testemunho da liberdade com que Cristo nos libertou.
A extraordinária fusão entre o amor de Deus e o amor do próximo torna a vida bela e faz renascer vida no deserto no qual, tantas vezes, nos encontramos a viver."

Um polemista à moda antiga

"Portugal tem excelentes cronistas e comentadores e algum debate jornalístico vivo e interessante. Dizemos mal da imprensa, por vezes com razão, mas sem dúvida que também existem bons valores nesse campo. No entanto, falta-nos frequentemente a agressividade e contundência que vemos, por exemplo, nos Estados Unidos ou, mesmo por cá, nos textos do Liberalismo e da Primeira República. São raras as penas afiadas e desbragadas e, em geral, dominam os nossos brandos costumes.

Vêm estas considerações a propósito da recente publicação do livro O Triunfo da Vida (Crucifixus, Lisboa, 2006), do padre Nuno Serras Pereira, que marca indiscutivelmente uma novidade no panorama da polémica nacional. O livro é insólito por várias razões. Primeiro por ser escrito por um sacerdote católico, classe que ultimamente tem andado bastante afastada da imprensa. Depois pela forma descomprometida, atrevida e contundente como trata os seus assuntos. Sempre truculento e por vezes violento, este livro parece dever mais a Guerra Junqueiro e Antero de Quental que aos comentadores actuais ou, ainda menos, aos autores sagrados.

O desassombro do autor provém de um facto simples, a denúncia indignada do que ele considera um crime enorme e abominável, e que a sociedade encara com apatia ou cumplicidade: "Um morticínio de seres humanos inocentes e indefesos, através da legalização do aborto provocado (precocemente ou cirurgicamente), da fecundação extracorpórea, da experimentação em embriões, etc., cuja dimensão não tem precedentes na História da Humanidade (p.7)." Horrorizado com esta realidade, o padre Serras Pereira luta com persistência e insistência, contra tudo e contra todos, porque qualquer respeito humano empalidece face à vastidão do martírio.

O autor, que já foi condenado em tribunal por um dos textos aqui incluídos, reúne agora num volume o labor dos últimos anos.

Ver em conjunto estes impressionantes títulos mostra bem a dimensão da campanha pessoal.

É importante dizer que a posição do padre Serras Pereira está longe de ser original. Ele esforça-se a cada passo por mostrar que defende apenas, com rigor e detalhe, aquela que é a atitude da Igreja Católica e que foi a das legislações dos países civilizados até há muito pouco tempo. E também não se limita a lançar golpes brutais contra os adversários.

O livro está cheio de referências eruditas, dados estatísticos, citações científicas e doutrinais. Na parte central a obra quase parece um tratado técnico sobre as questões da vida.

O autor sabe fundamentar bem aquilo que diz. Mas fá-lo com um desassombro, desprendimento e candura que lhe dão um lugar à parte na polémica nacional. Nada do que está escrito destoa do que se lê lá por fora acerca desses temas, mas soa estranho neste pacífico jardim litoral.

Na sua epopeia, com uma naturalidade desarmante e um atrevimento que por vezes arrepia, o livro não recua perante o ataque às instituições mais reputadas, mesmo do seu lado.

Rádio Renascença, Faculdade de Teologia, Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, até (com grande respeito) a Conferência Episcopal são increpadas, sempre com respeito, mas com inegável vigor e contundência, por vezes alguma impertinência.

Em várias páginas dá a sensação que, no meio de uma batalha onde dois exércitos se enfrentam ameaçadoramente, o padre Serras Pereira é o cavaleiro solitário que acusa de cobardia as suas tropas e não tem medo de cavalgar sozinho contra multidões.

O nosso tempo costuma gostar destas vozes solitárias e descomprometidas. Dizemos ser uma sociedade heterodoxa e insolente. Mas quando o alvo é a própria sociedade (ou seja, quando as posições são mesmo heterodoxas e insolentes) as coisas mudam de figura.

A urgência e o dramatismo são as suas razões. A sua atitude, afinal, é a mesma daqueles que, em séculos recuados, desesperavam perante a modorra da sociedade diante de terríveis injustiças como a escravatura, holocausto, pobreza e exploração dos operários.

Hoje, olhando para essas lutas antigas, condenamos os que, por conveniência ou compromisso, silenciavam ou moderavam as suas censuras. São as vozes livres e violentas que admiramos.

Nós temos a prudência e a moderação, o padre Serras tem limpidez e pureza de posição. A sua fixação arrisca-se a ferir susceptibilidades e a injuriar por inflexibilidade. Mas o nosso equilíbrio sensato é bastante incómodo quando consideramos o que está em causa.

João César das Neves, in
Diário de Notícias, 05.06.2006