20.5.06

A liberdade

"Hoje, muitos pensam que a realização do homem deva ser alcançada de modo absolutamente autónomo, sem nenhuma referência a Deus e à sua lei. Houve quem chegasse a teorizar uma absoluta soberania da razão e da liberdade no âmbito das normas morais: tais normas constituiriam o campo de uma ética unicamente "humana", isto é, a expressão de uma lei que o homem se dá a si mesmo autonomamente: os fautores desta "moral laica" afirmam que o homem, como ser racional, não só pode mas até deve decidir livremente o valor dos seus comportamentos.

Esta errada convicção baseia-se num presumível conflito entre a liberdade humana e qualquer forma de lei. Na realidade, o Criador porque somos criaturas inscreveu no nosso próprio ser a "lei natural", reflexo da sua ideia criadora no nosso coração, como bússola e medida interior da nossa vida. Precisamente por isto a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja nos dizem que a vocação e a plena realização do homem consistem não na recusa da lei de Deus, mas na vida segundo a nova lei, que consiste na graça do Espírito Santo: juntamente com a Palavra de Deus e com o ensinamento da Igreja, ela manifesta-se na "fé que actua pelo amor" (Gl 5, 6).

E é precisamente neste acolhimento da caridade que vem de Deus que a liberdade do homem encontra a sua realização mais alta. Entre a lei de Deus e a liberdade do homem não existe contradição: a lei de Deus rectamente interpretada não atenua nem muito menos elimina a liberdade do homem, ao contrário, garante-a e promove-a.


Bento XVI, Discurso aos membros da Pontifícia Comissão Biblica, 27.IV.2006