23.5.06

"E surpreendeu-se com a fé daquele homem..."

Como de costume, ao final da tarde, saiu da Igreja, levando o Santíssimo Sacramento consigo para o levar áquela senhora, mãe de 4 filhos, que padece de uma doença que não lhe permite sair da cama.
A distância não é muita, mas, como o sacerdote não tem um carro próprio e para evitar os autocarros quase sempre cheios àquela hora, decide entrar num taxi. Ao entrar, diz ao motorista do mesmo:
"Não vou sozinho. Levo Jesus Sacramentado comigo. Importava-se de desligar a rádio? Assim podíamos ir em oração até ao nosso destino, se lhe parece bem".
O taxista, surpreendido com o modo gentil do sacerdote, desliga a rádio.
O sacerdote, continuando a sua adoração, deixa-se guiar durante o percurso. No final, pergunta ao taxista quanto é.
O taxista recusa o pagamento. O sacerdote insiste, dizendo-lhe que é justo que o trabalhador receba o seu salário.
E o taxista responde:
"Senhor Padre, Jesus, no meu táxi, não paga".
E o sacerdote foi o resto do caminho a dizer ao Senhor: "Senhor, aumenta a minha fé".

22.5.06

Ordenação

"Embora a doutrina sobre a ordenação sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na Tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos documentos mais recentes, todavia actualmente em diversos lugares continua-se a retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal.

Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja."

João Paulo II, Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, 22.05.1994

O unico carisma superior

"O único carisma superior, a que se pode e deve aspirar, é a caridade. Os maiores no Reino dos céus não são os ministros, mas os santos".
Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial – Inter insigniores, 15 de outubro de 1976

Nomeação

No passado sábado, foi publicado que o Santo Padre nomeou, como Arcebispo de Nápoles, o Cardeal Crescenzio Sepe, até agora Prefeito da Congregação para a Propagação da Fé. Sucede, deste modo, ao Cardeal Michele Giordano que atingiu os 75 anos de idade.
Contemporaneamente, o Santo Padre nomeou como novo Prefeito da Congregação para a Propagação da Fé, o Cardeal Ivan Dias, actualmente arcebispo de Bombaim, de 70 anos.

Legislação eticamente absurda

Portugal tem um jeito especial para fazer uma trapalhada de assuntos importantes. O recente debate acerca da lei de "procriação medicamente assistida" é um bom exemplo desse dom. Logo o título é absurdo: hoje toda a gravidez tem assistência médica. Aquilo de que a lei quer tratar realmente é da procriação artificial.

Foi há quase 30 anos que nasceu o primeiro bebé-proveta, mas mesmo antes de 1978 já se sabia bem que essa tecnologia, com grandes benefícios na fertilidade, trazia enormes problemas éticos e legais. Desde então os avanços e os dilemas não deixaram de aumentar.

Vários países estão agora a rever as suas antigas leis, mas Portugal continua terra selvagem, sem qualquer regulamentação das práticas.

Cada nova tentativa aumenta o falhanço e a vergonha.

O primeiro projecto foi apresentado no Parlamento em 1985, mas foram precisos 13 anos para que a Assembleia aprovasse um articulado. Essa lei foi vetada em 1998 pelo Presidente Sampaio, que referiu como razão o insuficiente debate público durante o processo legislativo. Nas últimas eleições nenhum partido achou o problema importante para ser mencionado no seu programa eleitoral. Apesar disso, subitamente, apresentaram quatro propostas de lei, de novo sem qualquer discussão pública. Os articulados representam o que de pior se tem escrito sobre o tema.

O benefício dessas técnicas é muito meritório, dando a alegria de ter um filho a quem não o pode naturalmente. Mas os abusos que a lei deve acautelar são também evidentes. Está em causa uma vida humana como qualquer outra, mas criada de forma artificial. A ciência hoje permite a separação quase total entre pais e filho. Já não é preciso que o pai e a mãe se unam (fecundação artificial homóloga); mas também não é preciso que se encontrem (fecundação heteróloga), ou sequer se conheçam (bancos de embriões, esperma ou óvulos). Não é necessário que ambos estejam vivos (inseminação post mortem), ou que a mãe fique grávida (maternidade substitutiva). Por enquanto ainda é forçoso que pelo menos um deles saiba, mas vai deixar de ser (bebés nascidos em laboratório), ou sequer de haver um pai e uma mãe (clonagem).

Como na questão paralela da adopção, a preocupação devia centrar-se na criança, que tem de gozar dos mesmos direitos básicos e condições familiares que a lei garante a qualquer um. O Estado existe para proteger os fracos (embriões), não os fortes (cientistas e pais). Até porque aqui os perigos de manipulação e aproveitamento são assustadores. O embrião pode ser descartado, destruído, vendido, usado em experiências; pode ter pais desconhecidos, trocados, duas mães, etc.

Podem repetir-se os piores horrores da História, com a diferença de que a pessoa envolvida, no estado embrionário, é a mais vulnerável que existe. A utilização de fetos para usos científicos reproduz o que de pior fizeram os investigadores nazis nos campos de concentração, aqui sobre pessoas em gestação. A eliminação de "embriões excedentários" copia o horror do aborto, mas em muito maior escala. A sua selecção retoma as infâmias da eugenia e discriminação, mas nos próprios filhos. A fecundação post mortem cria órfãos antes mesmo de existirem. O congelamento de embriões representa a prisão absoluta. Os bancos de esperma e a maternidade de substituição abrem um comércio mais vergonhoso que a escravatura e prostituição. O anonimato dos dadores constrói pessoas sem identidade genética, que amanhã podem ter relações consanguíneas com pais ou irmãos desconhecidos.

Todas estas coisas, em maior ou menor grau, são permitidas pelos projectos discutidos na Assembleia, longe do público. O mais surpreendente é mesmo essa semelhança entre as várias propostas alegadamente opostas. A criação de bancos de embriões e a utilização em investigação é permitida por todos, do PSD ao BE. As exigências éticas, os fiascos antigos, até protocolos internacionais assinados por Portugal sobre o tema, nada parece ter influenciado os nossos deputados. Estes, em todo o espectro partidário, insistem numa atitude embasbacada perante a ciência, numa mentalidade parola de querer ser o mais progressivo do mundo, correndo atarantado para soluções libertárias e obsoletas.

Muitos cidadãos enveredaram pela única via séria, recolhendo assinaturas para uma petição de referendo (ver www.referendo-pma.org). Mas tudo indica que não será ainda desta vez que Portugal terá uma legislação decente sobre o tema.

João César das Neves, Professor universitário, in Publico, 24.04.2006

21.5.06

Pedido de desculpas

Por motivos de tempo, não me foi possível publicar os comentários que me foram sendo deixados nem responder pontualmente ao que tinha que ser respondido.

20.5.06

A liberdade

"Hoje, muitos pensam que a realização do homem deva ser alcançada de modo absolutamente autónomo, sem nenhuma referência a Deus e à sua lei. Houve quem chegasse a teorizar uma absoluta soberania da razão e da liberdade no âmbito das normas morais: tais normas constituiriam o campo de uma ética unicamente "humana", isto é, a expressão de uma lei que o homem se dá a si mesmo autonomamente: os fautores desta "moral laica" afirmam que o homem, como ser racional, não só pode mas até deve decidir livremente o valor dos seus comportamentos.

Esta errada convicção baseia-se num presumível conflito entre a liberdade humana e qualquer forma de lei. Na realidade, o Criador porque somos criaturas inscreveu no nosso próprio ser a "lei natural", reflexo da sua ideia criadora no nosso coração, como bússola e medida interior da nossa vida. Precisamente por isto a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja nos dizem que a vocação e a plena realização do homem consistem não na recusa da lei de Deus, mas na vida segundo a nova lei, que consiste na graça do Espírito Santo: juntamente com a Palavra de Deus e com o ensinamento da Igreja, ela manifesta-se na "fé que actua pelo amor" (Gl 5, 6).

E é precisamente neste acolhimento da caridade que vem de Deus que a liberdade do homem encontra a sua realização mais alta. Entre a lei de Deus e a liberdade do homem não existe contradição: a lei de Deus rectamente interpretada não atenua nem muito menos elimina a liberdade do homem, ao contrário, garante-a e promove-a.


Bento XVI, Discurso aos membros da Pontifícia Comissão Biblica, 27.IV.2006

8.5.06

Santa Missa

[A Santa Missa] é o único momento do dia que justifica a minha existência como sacerdote. Qualquer pessoa pode organizar associações, ensinar o catecismo ou baptizar; sim, e uma boa centena dos meus paroquianos pode até rezar melhor do que eu.
A graça de Deus pode converter os pecadores, conquistar os hereges e fazer santos sem a minha ajuda.
Mas nestes trinta tremendos minutos, que são eternos, Deus precisa de mim; só de mim; só eu posso oferecer o Sacrifício.
E, no entanto, aqui estou eu em pé diante do altar, pensando que não seria mau jantar esta noite salsichas alemãs com couve lombarda…
Leo Trese, Vaso de argila, Ed. Quadrante, p. 23

1.5.06

Hábito eclesiástico

Ao longo dos últimos anos tem-se assistido a um número crescente de jovens sacerdotes que recomeçaram a usar o hábito eclesiástico. É uma constatação, e não uma opinião.

A normativa da Igreja, sobre este tema, é bastante clara.

No Código de Direito Canónico, o can. 284 afirma: "Os clérigos usem trajo eclesiástico conveniente, segundo as normas estabelecidas pela Conferência Episcopal, e segundo os legítimos costumes dos lugares".

Recorrendo à Conferência Episcopal portuguesa, pode ler-se num decreto de 18 de Dezembro de 1984:
"Em conformidade com o can. 284, a Conferência Episcopal Portuguesa determina:
1.Usem os sacerdotes um trajo digno e simples de acordo com a sua missão.
2. Esse trajo deve identificá-los sempre como sacerdotes, permanentemente disponíveis para o serviço do povo de Deus.
3.Esta identificação far-se-á, normalmente, pelo uso:
a) da batina;
b) ou do fato preto ou de cor discreta com cabeção.

As razões desta legislação podem ser encontradas, entre outros sítios, no Directório para a Vida e Ministério dos Presbíteros:

66. Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, onde também os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero — homem de Deus, dispensador dos seus mistérios — seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor dum ministério público.(211) O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo seu comportamento, mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente perceptível por cada fiel, melhor ainda por cada homem, (212) a sua identidade e pertença a Deus e à Igreja.

Por este motivo,o clérigo deve trazer um hábito eclesiástico decoroso, segundo as normas emanadas pela Conferência Episcopal e segundo os legítimos costumes locais.

Isto significa que tal hábito, quando não è o talar, deve ser diverso da maneira de vestir dos leigos e conforme à dignidade e à sacralidade do ministério. O feitio e a cor devem ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos, sempre de harmonia com as disposições do direito universal.
Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as praxes contrárias não se podem considerar legítimas e devem ser removidas pela autoridade eclesiástica competente.

Salvas excepções completamente excepcionais, o não uso do hábito eclesiástico por parte do clérigo pode manifestar uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente dedicado ao serviço da Igreja.