15.4.06

O Evangelho de Judas...

O que é?
É um código* do séc. IV, bastante incompleto e fragmentado, pois das 62 páginas que originalmente compunham este manuscrito, só nos chegaram 26.

História
Este código é a tradução em copto** de um precedente original grego, muito provavelmente do séc. II, que se perdeu, escrito por uma das muitas correntes gnósticas existentes nos primeiros séculos depois de Cristo.

Esse original grego deste Evangelho já era do conhecimento de S. Ireneu que lhe faz referência no seu Adversus haereses (XXXI-1, c. 180):

Esses (os gnósticos) declaram que só Judas, o traidor, conhecia, como ninguém, a Verdade e que, por isso, realizou o mistério da traição, a seguir ao qual tudo, na terra e no céu, ficou transtornado.
Esses, portanto, escreveram uma história fundada sobre estas bases e chamaram-lhe Evangelho de Judas.


O texto agora publicado é a versão copta, do séc. IV, versão muito provavelmente redigida no Egipto e que ficou guardada durante 1600 anos.

No início dos anos 70, o código foi descoberto perto de El Minya, no Egipto, e passou por várias mãos até chegar a Long Island, nos Estados Unidos.

Em Abril do ano 2000, Frieda Nussberger-Thacos, que negoceia em antiquarias, comprou o código e, para proceder à conservação e à tradução, cedeu-o à Maecenas Foundation for Ancient Art, que tem a sua sede em Basel, na Suiça. Ao documento foi dado o nome de Código Thacos.

A Maecenas Foundation, para proceder à tradução, pediu a colaboração de várias entidades, entre as quais se encontra a National Geografic, que adquiriu a exclusividade dos direitos de imagem. A tradução, iniciada em 2001 por Rodolphe Kaser, especialista em copto, ficou pronta em Janeiro de 2006 e acaba de ser publicada.

Depois de traduzido, o documento será cedido no Museu Copto do Cairo, no Egipto.

Conteúdo
Das 62 páginas que o código original tinha, só foram encontradas 26. Estas páginas que foram encontradas, não constituem um todo, mas são páginas soltas, e, muitas delas, nem sequer estão completas, só existindo fragmentos.
O documento começa por narrar as revelações secretas que Jesus terá feito a Judas Iscariotes.
Judas é descrito como o Apóstolo mais íntimo de Jesus, e aquele que compreendia mais profundamente o Mestre.
A parte central do código (ou da parte que chegou até nós) é que Judas teria traído Jesus por ordem deste, para que o espírito presente no corpo terreno de Jesus se libertasse finalmente da carne (sendo esta uma das principais doutrinas gnósticas).

Análise
Em primeiro lugar, o texto que agora é traduzido para inglês, ainda que possa ser interessante do ponto de vista histórico e filológico, do ponto de vista doutrinal não traz grandes novidades pois o conteúdo já era conhecido (chegou até nós através de S. Ireneu).

Em segundo lugar, o Evangelho de Judas pertence à corrente gnóstica. Esta corrente, a partir da qual surgiram muitos movimentos e associações diferentes tem, pelo menos, dois pontos em comum: defende que a salvação nos vem pelo conhecimento, pelo que se salva quem possui a sabedoria (e não quem acredita que Jesus Cristo é o Salvador que nos salva dos nossos pecados); defende ainda que esse conhecimento e, por conseguinte, a salvação não é para todos, mas sim só para alguns. Este aspecto é muito evidente no próprio texto que nos chegou. E isto é contrário à doutrina que Jesus e os Apóstolos pregaram desde o início: que somos salvos pela fé em Jesus, pelo cumprimento dos mandamentos, sobretudo pelo mandamento do Amor e pela frequência aos sacramentos, onde está presente o próprio Jesus; e que a salvação é para todos, e não só para alguns.

Em terceiro lugar, os vários dados presentes neste Evangelho de Judas contradizem aquilo que dizem os Evangelhos que fazem parte do Novo Testamento: aquele que é apresentado como o discípulo amado é João, autor do quarto Evangelho; os discípulos mais próximos parecem sempre ser Pedro e Tiago, para além de João.

Em quarto lugar, foi a própria comunidade cristã dos primeiros séculos que escolheu os Evangelhos que aparecem no Novo Testamento como mais fiéis à verdade dos factos. Foi um processo lento, que demorou alguns séculos, mas foi a própria comunidade dos primeiros séculos, cronologicamente mais perto dos factos, a escolher, para a liturgia e para a propagação da fé os textos mais coerentes com aquilo que aconteceu e a afastar outros, como o Evangelho de Judas.

* O código é um conjunto de folhas de papiro, manuscritas. O papiro mantêm-se em boas condições só num clima muito seco e quente, o que explica porque é que, os papiros que chegaram aos nossos dias, provêm praticamente todos do Egipto, que possui esse tipo de clima.

** O copto é um alfabeto decalcado no alfabeto grego, ao qual se adicionaram mais 4 sinais,

Referências:
- National Geografic
- Wikipedia
- Wind Rose Hotel
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