24.12.06

Votos de um Santo Natal


"E por nós homens, e para nossa salvação, desceu dos Céus"

Votos de um Santo Natal e um ano de 2007 cheio de alegrias.

JP

13.12.06

870

A"questão do aborto" em Portugal é uma história já adulta. Há mais de 20 anos, quando alguns dos actuais eleitores não eram sequer nascidos, a discussão centrava-se à volta do início da vida humana. Por um lado, os pró-vida argumentavam que esta começava no princípio, na concepção. Por outro lado, os pró-escolha defendiam que ninguém sabia quando começava a vida humana, e um "conjunto de células" nas primeiras semanas de gravidez não o era certamente. Os dados científicos eram escassos e havia um grande desconhecimento sobre o desenvolvimento do feto.
Há oito anos o primeiro referendo sobre a IVG (interrupção voluntária da gravidez em PPC, português politicamente correcto) mostrou uma clivagem entre a opinião pública e a publicada: teve uma abstenção superior a 70 por cento e o "não" ganhou.
Nos últimos oito anos assistimos a várias tentativas de colocar a questão do aborto na agenda política. O "flagelo do aborto clandestino" foi considerado argumento principal, apesar de os escassos e incompletos dados oficiais mostrarem um número reduzido de internamentos por complicações de aborto fora do quadro legal (1426 internamentos em 2004, 89 por cento por aborto incompleto ou retido, apenas 56 infecções e ausência de mortalidade; dados da Direcção-Geral de Saúde). Foi-nos repetidamente perguntado se queríamos "mandar as mulheres para a prisão". Contudo, as poucas mulheres julgadas até hoje tinham todas abortado com mais de dez semanas de gravidez e daí não resultaram penas de prisão. A eventual legalização do aborto até às dez semanas "por opção da mulher" criminaliza-o a partir das dez semanas e um dia, pelo que estas questões da humilhação, julgamento e eventual condenação se mantêm a partir daí.
A mãe deve ser compreendida e ajudada, mas não podemos desviar a nossa atenção da outra vida em questão, a do feto, que, por ser frágil e indefesa, depende da nossa protecção. Porque actualmente, passados mais de 20 anos, já não pode ser dito que o feto não é vida, pois a ciência mostrou-o de um modo claro e comovente. Pode causar surpresa a alguns, mas é hoje consensual entre a comunidade científica que, às dez semanas (para aplicar o limite arbitrariamente proposto pelo actual referendo), o tal "conjunto de células" se encontra organizado de um modo que é impossível não ser reconhecido como um ser humano.
Avanços recentes na cardiologia fetal mostram que o desenvolvimento do coração ocorre entre as três e as seis semanas de gestação, e que por volta do 20.º dia este já bate. Entre a 8.ª e a 9.ª semana, o coração está formado com as estruturas cardíacas, ocupando já as posições e realizando as suas funções definitivas. Às dez semanas, o coração do feto assemelha-se muito ao coração adulto, quer externa, quer internamente. As mais delicadas estruturas cardíacas, como os milimétricos folhetos da válvula aórtica, estão formadas e vão continuar a sua maturação e diferenciação. Às dez semanas, a função circulatória está estabelecida e só vai alterar-se após o bebé nascer, com a adaptação à respiração. O coração bate com regularidade e variabilidade, e a complexidade das funções sistólica e diastólica é comparável à dos adultos.
Sem estigmatizar as grávidas, antes acolhendo-as e aos seus bebés, é nosso dever como profissionais de saúde tornar as "barrigas transparentes", de modo a ajudar os portugueses a compreender que lá dentro está uma pessoa, que, se tiver dez semanas de gestação, tem um coração que bateu 870 vezes durante a leitura deste artigo.

José Diogo Ferreira Martins
Cardiologista pediátrico
in Publico, 12.12.2006
Artigo do dia in Plataforma do não

8.12.06

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria


A celebração da vitória do dom de Deus sobre o pecado do homem

7.12.06

Plataforma do não

Está disponivel a pagina da Plataforma do não. à pergunta que será realizada no próximo referendo ao aborto.

6.12.06

Exame de consciência

"Sempre me tocou aprender do modo mais dificil, à força de pancadas. Apesar dos directores do seminário e dos teólogos de ascética, tive que descobrir por mim mesmo que, ou meditamos, ou perecemos. Mais tempo levei ainda a admitir a necessidade do exame de consciência.
Considerava-o privativo das freiras e dos seminaristas, deslocado da vida de um sacerdote cheio de afazeres. Pouco a pouco, no entanto, fui percebendo que a meditação, por si só, não é suficiente. As boas resoluções esquecem-se depressa. Às sete da manhã parecia-me que flutuava noutro mundo, mas, às sete da tarde, sentia-me muito preso a este. Era evidente que os meus esforços espirituais tinham o mesmo defeito do meu futebol: falta de fôlego."

Leo Trese, Vaso de argila, Exame particular, p.73

Referência

Um excelente artigo de João Duque na Agência Ecclesia sobre a visita do Santo Padre Bento XVI à Turquia.

29.11.06

Modos de uma campanha

Começa hoje o periodo oficial de campanha, tendo em vista o referendo ao aborto.

Do ponto de vista legal, o aborto é crime (e continuará a ser mesmo depois do referendo) pois, de um ponto de vista estrictamente juridico, é a morte da vida que se encontra no seio da mãe. É por isso, que o tema do referendo é a interrupção voluntária da gravidez (onde a única vontade que conta é a da mãe: "por opção da mulher") que é a mesma coisa que o aborto, só que não é punível criminalmente, segundo o Código Penal português.

É importante fazer perceber as pessoas que, defender o "não" no próximo referendo não é estar contra ninguém. É, pelo contrário, estar a favor da vida, de toda a vida, sobretudo da mais indefesa.

É, também, estar a favor das mulheres, defendendo um dos dons mais sagrados que têm, que é o de gerar novas vidas, compreendendo que a maternidade, muitas vezes, se apresenta com contornos dramáticos, que é preciso ajudar a resolver. Por isso, dentro deste debate, vale a pena fazer perceber que o aborto, desculpem, a interrupção voluntária da gravidez, não só não é solução, mas sim a fonte de maiores problemas: para a mulher e para a sociedade.

É, por último, estar a favor de um debate sereno, positivo, defendendo a verdade sobre a vida, sobre a mulher e o seu imprescindivel papel no mundo... e o imprescindivel papel de mãe para com a vida que traz no seu seio.

"É imprescindível que o debate sobre uma questão deste alcance decorra com a maior serenidade e elevação. Nesse sentido, apelo a que a campanha que se vai realizar em torno deste referendo constitua uma oportunidade para que se realize um debate sério, informativo e esclarecedor para todos aqueles que irão ser chamados a decidir uma matéria tão sensível como esta." (Presidente da Republica, Comunicação ao país, 2006.11.29

O referendo...

... será no dia 11 de Fevereiro.

É o dia de Nossa Senhora de Lourdes. Coincidência?

28.11.06

A paz...

... e a tranquilidade reinaram no primeiro dia da visita do Santo Padre à Turquia.

Nas ruas, sente-se uma certa indiferença. Mas, segundo os relatos de quem por lá anda, como a maioria dos carros são brancos e os taxis amarelos, ajuda a dar côres vaticanas ao ambiente turco.

27.11.06

Visita do Santo Padre à Turquia

O Santo Padre parte amanhã para a Turquia. A iniciativa do convite não partiu das autoridades civis do país, mas sim do Patriarca Ortodoxo Bartolomeu I. O convite já tinha sido feito para o Santo Padre ir à Turquia no ano passado, mas o Governo do país turco inviabilizou a viagem, atrasando, diplomaticamente, o convite.
Esta visita é uma manifestação importante daquilo que o Papa disse no seu primeiro discurso, logo no dia seguinte à sua eleição como sucessor de S. Pedro:

"Com plena consciência, no início do seu ministério na Igreja de Roma, na qual Pedro derramou o seu sangue, o actual Sucessor assume como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo. Esta é a sua ambição, este é o seu impelente dever. Ele está consciente de que para isto não são suficientes as manifestações de bons sentimentos. São necessários gestos concretos que entrem nos corações e despertem as consciências, enternecendo cada um àquela conversão interior que é o pressuposto de qualquer progresso pelo caminho do ecumenismo." (Bento XVI, Primeira Mensagem no final da concelebração Eucaristica com os Cardeais eleitores na Capela Sistina, 2006.04.20, n. 5)

Ao mesmo tempo, apesar dos ventos contrários, vindos de uma parte da comunidade civil turca, da maior parte da comunicação social, a pertinência do Santo Padre já fez com que o primeiro ministro turco mudasse de ideias e receba Sua Santidade no aeroporto e, sobretudo, está a gerar uma enorme expectativa à volta desta visita.

O Papa fará o que tem a fazer: falará de Jesus Cristo e proclamará o Evangelho. E as luzes da comunicação social, com todas as tentativas em trocarem o essencial pelo acidental, não vão conseguir impedir Bento XVI de transmitir a Boa Nova.

8.11.06

Documentário: "Vida no ventre"

Um documentário da National Geografic sobre a vida a partir do momento da concepção pode ser visualisado no site da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas.
Vale a pena.

20.10.06

Ainda sobre o aborto...

Deus perdoa sempre...
O homem perdoa às vezes...
A natureza, nunca perdoa...

Sobre o aborto...

E, duas legislaturas depois, somos empurrados novamente a debater o tema do aborto.
O Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, em comunicado, esclarece as suas recentes declarações sobre este tema. Como o comunicado não vai ter nenhum direito de antena nos meios de comunicação, pode ser lido aqui.
A Conferência Episcopal Portuguesa, por seu lado, emitiu uma Nota Pastoral, que já tinha sido votada na última assembleia plenária, sobre este tema. Pode ser lida aqui.

16.10.06

Uma cultura de morte

A atracção pela morte é um dos sinais da decadência. Portugal deveria estar, neste momento, a discutir o quê? Seguramente, o modo de combater o envelhecimento da população.

Um país velho é um país mais doente. Um país mais pessimista. Um país menos alegre. Um país menos produtivo. Um país menos viável – porque aquilo que paga as pensões dos idosos são os impostos dos que trabalham.

Era esta, portanto, uma das questões que Portugal deveria estar a debater. E a tentar resolver.

Como?

Obviamente, promovendo os nascimentos. Facilitando a vida às mães solteiras e às mães separadas.

Incentivando as empresas a apoiar as empregadas com filhos, concedendo facilidades e criando infantários.

Estabelecendo condições especiais para as famílias numerosas.

Difundindo a ideia de que o país precisa de crianças – e que as crianças são uma fonte de alegria, energia e optimismo.

Um sinal de saúde.

Em lugar disto, porém, discute-se o aborto.

Discutem-se os casamentos de homossexuais (por natureza estéreis).

Debate-se a eutanásia.

Promove-se uma cultura da morte.

Dir-se-á, no caso do aborto, que está apenas em causa a rejeição dos julgamentos e das condenações de mulheres pela prática do aborto – e a possibilidade de as que querem abortar o poderem fazer em boas condições, em clínicas do Estado.

Só por hipocrisia se pode colocar a questão assim.

Todos já perceberam que o que está em causa é uma campanha.

O que está em curso é uma desculpabilização do aborto, para não dizer uma promoção do aborto.

Tal como há uma parada do ‘orgulho gay’, os militantes pró-aborto defendem o orgulho em abortar.

Quem já não viu mulheres exibindo triunfalmente t-shirts com a frase «Eu abortei»?

Ora, dêem-se as voltas que se derem, toda a gente concorda numa coisa: o aborto, mesmo praticado em clínicas de luxo, é uma coisa má.

Que deixa traumas para toda a vida.

E que, sendo assim, deve ser evitada a todo o custo.

A posição do Estado não pode ser, pois, a de desculpabilizar e facilitar o aborto – tem de ser a oposta.

Não pode ser a de transmitir a ideia de que um aborto é uma coisa sem importância, que se pode fazer quase sem pensar – tem de ser a oposta.

O Estado não deve passar à sociedade a ideia de que se pode abortar à vontade, porque é mais fácil, mais cómodo e deixou de ser crime.

Levada pela ilusão de que a vulgarização do aborto é o futuro, e que a sua defesa corresponde a uma posição de esquerda, muita gente encara o tema com ligeireza e deixa-se ir na corrente.

Mas eu pergunto: será que a esquerda quer ficar associada a uma cultura da morte?

Será que a esquerda, ao defender o aborto, a adopção por homossexuais, a liberalização das drogas, a eutanásia, quer ficar ligada ao lado mais obscuro da vida?

No ponto em que o mundo ocidental e o país se encontram, com a população a envelhecer de ano para ano e o pessimismo a ganhar terreno, não seria mais normal que a esquerda se batesse pela vida, pelo apoio aos nascimentos e às mulheres sozinhas com filhos, pelo rejuvenescimento da sociedade, pelo optimismo, pela crença no futuro?

Não seria mais normal que a esquerda, em lugar de ajudar as mulheres e os casais que querem abortar, incentivasse aqueles que têm a coragem de decidir ter filhos?

J. A. Saraiva, Sol, 14.10.2006

5.10.06

Amar a Igreja

Custa-me e dói-me que tantos cristãos, filhos desta Mãe, que é a Santa Igreja, em vez de a defenderem, permitam e até pactuem com pessoas que atacam os seus pastores.

Quando criticas alguém, rezaste e mortificaste-te para que ele fosse melhor?

4.10.06

Sequestro de avião não foi protesto contra a visita do Santo Padre à Turquia

As autoridades civis italianas desmentiram que o avião turco que ontem foi desviado para Itália tivesse sido sequestrado para protestar contra a visita do Santo Padre à Turquia.

Esta versão foi posta a circular por Candan Karlitekin, Presidente da Direcção da Turkish Airlines e foi reproduzida por muitos meios de comunicação nacionais e internacionais. No entanto, Candan Karlitekin não teve nenhum contacto com o sequestrador nem com a tripulação do avião sequestrado.

O avião foi sequestrado por uma única pessoa, Hakan Ekinci, que afirma ser católico. Em Agosto passado, tinha escrito uma carta ao Santo Padre a pedir ajuda, pois queria evitar o serviço militar na Turquia.

Créditos:
Aciprensa
Repubblica

3.10.06

Re inícios

À medida que se aproxima o momento de tomar posse de novos encargos apostólicos, procuro, humanamente, preparar tudo o melhor possível. Mas o planeamento, as actividades e tudo o resto só terá eficácia e, no fundo, valor de vida eterna, se for preparado na oração, no diálogo com o Senhor. A pergunta certa não é: "O que é que eu quero fazer?", mas sim: "Senhor, que queres que eu faça?"

E fico em grande paz. Pois, no fundo, é Ele que fará tudo. Eu serei apenas instrumento.

Ao entrar nas paróquias que o Senhor acaba de me confiar, não vou com riqueza, nem com grande sabedoria e, muito menos, com soluções mágicas. Vou, Senhor, contigo no coração e nos lábios, sabendo que és tu quem moves os corações.

Da minha parte, a miséria de fraco instrumento. Da Tua, a graça que nos salva.

30.9.06

Catecismo da Igreja Católica em Português

Apesar de não existir, na internet, uma versão oficial do Catecismo da Igreja Católica em português, há uma versão que pode ser consultada aqui.

26.9.06

Discurso do Santo Padre em português - versão oficial

Foi publicada a versão oficial do Discurso que o Santo Padre proferiu no passado dia 12 de Setembro. Pode ser consultado aqui.

No encontro de ontem com os representantes diplomáticos de países de maioria muçulmana, e outros representantes muçulmanos, o Santo Padre não fez nenhuma referência ao discurso de Regensburg. O Santo Padre decidiu expressar a "profunda estima que tem pelo povo muçulmano".

No final do encontro, as reacções foram muito positivas. Um gesto vale mais do que mil palavras.

Créditos:
Zenit
AciDigital

Hoje...

... estou um dia mais perto do Céu.

Obrigado Senhor por quanto me deste e continuas a dar-me e perdoa-me por, tantas vezes não retribuir com amor ao teu Amor.

22.9.06

As reacções da imprensa ao discurso do Santo Padre

"O nosso, é um tempo em que se espera do cristão que louve todos os credos menos o seu." (G. K. Chesterton, Illustrated London News, 11.08.1928)

Nas recentes polémicas sobre o Discurso do Santo Padre do passado dia 12 de Setembro e as consequentes reacções, parece-me que a crítica da imprensa ao Papa se pode concentrar em três grandes questões.

1. Segundo os jornalistas, o Papa não pode condenar a violência como meio de difusão das religiões pois os cristãos fizeram o mesmo.

A mim, parece-me evidente que houve cristãos, alguns dos quais pertenciam à hierarquia, que misturaram as suas responsabilidades espirituais com poderes e ambições temporais. Isso é um dado histórico evidente. Mas a própria Igreja reconheceu os seus erros, foi pondo os meios para que isso não voltasse a acontecer e chegou, inclusivé, a pedir publicamente perdão, a Deus e aos homens, dos erros cometidos no passado.
Aquilo que os jornalistas exigem ao Papa não o fazem eles próprios, pois tantas vezes é a Igreja atacada sem motivo e os meios de comunicação social são incapazes de, nessas situações, fazerem um justo mea culpa.
Se a Igreja e os seus membros continuassem, como no passado, a usar a violência para propagar a fé que professam, então seria incoerente, por parte do Santo Padre ter dito o que disse. Ora, é um dado de facto que, nos países de tradição cristã é onde existe uma separação mais clara e legislada entre a Igreja e a autoridade civil, e onde existem os intrumentos jurídicos mais avançados para que essa separação seja mantida. Os erros foram identificados, corrigidos e foi pedido perdão por eles, por isso a opinião da imprensa peca por injustiça.

2. O Papa cometeu um erro, pois deveria ter previsto as consequências da citação que fez e das suas declarações.

Concerteza, o Santo Padre, antes de proferir o discurso, mediu bem cada uma das palavras que usou. Ao contrário do que acontecia com o seu predecessor, quem escreve tudo aquilo que lê é o próprio Papa (João Paulo II, em muitas ocasiões, pedia aos seus colaboradores que lhe escrevessem os textos depois de lhes indicar o que queria dizer e que ideias queria transmitir. Apesar de ser o autor formal dos textos, o Papa João Paulo II não era, muitas vezes, o autor material do mesmo).
Na opinião da imprensa, o Santo Padre deveria ter-se "auto-censurado" por medo dos fanáticos.
É verdade que o Papa Bento XVI pode ter pecado por excesso de confiança ao pensar que poderia encontrar interlocutores adequados, até entre os muçulmanos, para um diálogo "franco e sincero". Até ao momento, quem está a fazer barulho são os radicais. Esperemos que os ventos mudem.

3. O Papa deu um passo atrás no diálogo que o seu predecessor, o venerado João Paulo II, estabeleceu com as várias religiões.

Quem faz este tipo de comparações são os mesmos que comparavam João Paulo II com Paulo VI para concluir que este último tinha sido melhor, ou que comparavam Paulo VI com João XXIII para concluir que os predecessores são sempre melhores que os que lhes sucedem... Mas só porque, provavelmente, já estão na Casa do Pai.
O Santo Padre pôs o dedo na ferida: um verdadeiro diálogo só se pode fazer quando as premissas se baseiam na verdade, sendo esse o lema que ele próprio escolheu, ainda como jovem Bispo: "Cooperator veritatis", Cooperador da verdade.

Novo Bispo de Aveiro

Há pessoas, pelas quais passamos, e que nos marcam pelo sorriso, pelo afecto humano e sobrenatural que transmitem e pela fé profundamente meditada e rezada.
É o caso do Bispo nomeado de Aveiro, de nome António Francisco dos Santos.
Muitas felicidades, Excelência!

20.9.06

Discurso do Santo Padre

Em seguida publico uma tradução em português do discurso do Santo Padre que suscitou as recentes polémicas.
A tradução é do Dr. Pedro Aguiar Pinto, a quem agradeço de coração.


Fé, Razão e Universidade: Memórias e Reflexões
Discurso do Papa na Universidade de Regensburg


Vossas Eminências,
Vossa Magnificência,
Excelências,
Distintos Senhoras e Cavalheiros,

É uma experiência comovente para mim estar de volta á universidade e poder, mais uma vez, dar uma lição neste pódio. Penso naqueles anos em que, depois de um período agradável na Universidade de Freisinger, comecei a ensinar na Universidade de Bona. Estávamos em 1959, nos tempos em que a universidade era feita de professores catedráticos. As várias cadeiras não tinham nem assistentes nem secretarias, mas em recompensa havia muito mais contacto directo entre estudantes e entre os próprios professores. Encontrávamo-nos com frequência antes e depois das lições nas salas de professores. Havia um intercâmbio vivo com historiadores, filósofos e, naturalmente, entre as duas faculdades de teologia. Uma vez por semestre havia o dies academicus, em que professores de cada faculdade apareciam perante os estudantes de toda a universidade, tornando possível uma experiência genuína da universitas – algo que V. Ex.ª também, Magnífico Reitor, acabou de mencionar – a experiência, noutras palavras, do facto, de que, apesar das nossas especializações que, por vezes, tornam difícil comunicarmos uns com os outros, fazemos parte de um todo, trabalhando em tudo na base de uma racionalidade única nos seus vários aspectos e partilhando responsabilidade no uso adequado da razão – esta realidade tornava-se uma experiência vivida. A universidade tinha também muito orgulho das suas duas faculdades de teologia. Era claro que, inquirindo sobre a razoabilidade da fé, também levavam a cabo um trabalho que era necessariamente parte do “todo” da universitas scientarum, mesmo se nem toda a gente pudesse partilhar da fé que os teólogos procuram correlacionar com a própria razão. Este sentimento profundo de coerência da razão dentro da universidade não foi sequer perturbado, mesmo quando uma vez foi noticiado que um colega nosso dissera algo estranho acerca da nossa universidade: que tinha duas faculdades dedicadas a algo que não existia: Deus. Mesmo face a tão radical cepticismo é ainda necessário e razoável colocar a questão de Deus pelo uso da razão, e fazê-lo no contexto da tradição da fé cristã: isto, na universidade, considerada na sua totalidade, era aceite sem qualquer questão.

Fui recordado disto, quando recentemente li a edição do Professor Theodore Khoury (Münster) de parte do diálogo levado a cabo – talvez em 1391 no acampamento de Inverno perto de Ankara – entre o erudito Imperador Bizantino Manuel II Paleólogo e um intelectual Persa sobre o assunto da Cristandade e do Islão e a verdade de ambos. Presumivelmente foi o Imperador que iniciou este diálogo, durante o cerco de Constantinopla entre 1394 e 1402; e isto explicaria porque é que os seus argumentos são mostrados em maior detalhe do que os do seu interlocutor Persa. O diálogo situa-se largamente nas estruturas da fé contidas na Bíblia e no Corão e trata especialmente a imagem de Deus e do homem, ao mesmo tempo que retorna sucessivamente à relação entre – como são chamadas – as três “Leis” ou “regras de vida”: o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o Corão. Não é minha intenção discutir esta questão nesta lição; eu gostaria de discutir aqui apenas um aspecto – ele próprio bastante marginal ao diálogo na sua totalidade – que, no contexto do tema “fé e razão”, me parece interessante e serve como ponto de partida para a minha reflexão sobre esta matéria.

No sétimo colóquio ("diálesis" – controvérsia) editado pelo Professor Khoury, o imperador toca no tema da guerra santa. O imperador devia saber que surah 2, 256 diz: “Não há compulsão nas coisas da fé”. De acordo com os peritos, este é um dos suras do período inicial, em que Maomé não tinha ainda qualquer poder e era perseguido. Mas o imperador também conhecia as instruções, mais tardes desenvolvidas e transcritas para o Corão, e que dizem respeito à Guerra Santa. Sem descer a detalhes, tais como as diferenças em tratamento relativas aos que seguiam o “Livro” e aos “infiéis”, ele dirige-se ao seu interlocutor com uma brusquidão inesperada que nos surpreende acerca da questão central sobre a relação entre religião e violência, em geral, dizendo: “Diz-me o que é que Maomé trouxe de novo e aí apenas encontrarás coisas más e desumanas tais como a sua directiva de espalhar com a espada a fé que pregava”. O imperador, depois de se ter expresso assim tão fortemente, segue para explicar em detalhe as razões pelas quais divulgar a fé pela violência é qualquer coisa de irrazoável. A violência é incompatível com a natureza de Deus. “Deus”, diz ele, “não se compraz com sangue – e agir irrazoávelmente (syn logo) é contrário à natureza de Deus. A fé nasce da alma, não do corpo. Quem quer que conduza alguém à fé precisa da habilidade de falar bem e de julgar adequadamente, sem violência ou ameaças... Para convencer uma alma razoável, não é preciso um braço poderoso, ou armas de qualquer tipo, ou qualquer outro meio de ameaçar uma pessoa de morte....”

A afirmação decisiva neste argumento contra a conversão violenta é esta: não agir de acordo com a razão é contrário à natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, observa: Para o Imperador, um Bizantino formado pela filosofia Grega, esta afirmação é auto-evidente. Mas para a mentalidade muçulmana é absolutamente transcendente. A Sua vontade não está limitada por nenhuma das nossas categorias, mesmo pela da racionalidade. Aqui, Khoury cita um trabalho do notável islamista Francês R. Arnaldez, que assinala que Ibn Hazn foi tão longe a ponto de afirmar que Deus não está ligado a cumprir a sua própria palavra e que nada o obriga a revelar-nos a verdade. Se fosse essa a vontade de Deus, nós seríamos inclusive obrigados a praticar a idolatria.

Neste ponto, e tanto quanto somos capazes de compreender Deus e, por isso, a concretizar a prática da religião, deparamo-nos com um dilema inevitável. Será que a convicção de que actuar irrazoavelmente contradiz a natureza de Deus é apenas uma ideia Grega, ou é sempre e intrinsecamente verdade? Acredito que podemos ver a harmonia profunda entre o que é Grego no melhor sentido da palavra e a compreensão bíblica da fé em Deus. Modificando o primeiro versículo do Livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Bíblia, João começou o prólogo do seu Evangelho com as palavras: “No princípio era o Verbo” – logos -. Esta é a exacta palavra usada pelo Imperador: Deus age pela palavra (logos). Logos significa razão e palavra – uma razão que é creativa e capaz de auto-comunicação, precisamente porque é razão. João diz assim a última palavra sobre o conceito de Deus e nesta palavra todos os meandros penosos e tortuosos da fé bíblica encontram o seu cume e a sua síntese. No princípio era o verbo, e o verbo era Deus, diz o Evangelista. O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento Grego não aconteceu por acaso. A visão de S. Paulo, que viu as estradas da Ásia bloqueadas e num sonho viu um Macedónio pedindo-lhe “Passa à Macedónia e vem ajudar-nos” (cf. Acts 16:6-10) – esta visão pode ser interpretada como uma “destilação” da necessidade intrínseca de uma reaproximação entre a fé bíblica e a pesquisa Grega.

De facto, esta reaproximação já decorria há algum tempo. O misterioso nome de Deus, revelado na sarça ardente, um nome que separa este Deus de todas as divindades com todos os seus diferentes nomes e declara simplesmente: “Eu sou”, já representa um desafio à noção de mito, em analogia próxima com a tentativa de Sócrates de vencer e transcender o mito. No Antigo Testamento, o processo que começou na sarça ardente alcançou nova maturidade no tempo do Exílio, quando o Deus de Israel, um Israel então privado da sua terra e do seu templo, foi proclamado como Deus do céu e da terra e descrito numa fórmula que ecoa nas palavras sussurradas na sarça ardente: “Eu sou”. Esta nova compreensão de Deus é acompanhada por uma espécie de iluminação que encontra a sua expressão completa no desprezo de deuses que são simples obras de mãos humanas (Sl 115, 4). Assim, apesar do conflito amargo com os governantes helénicos que almejaram acomodá-la à força aos costumes idólatras do culto dos Gregos, a fé bíblica, no período Helenístico, encontrou o melhor do pensamento Grego num nível profundo, resultando num enriquecimento mútuo evidente, especialmente na mais tardia literatura da sabedoria. Hoje, sabemos que a tradução grega do Antigo Testamento produzida em Alexandria – a tradução dos Setenta – é mais do que uma simples (e, nesse sentido, realmente menos do que satisfatória) tradução do texto Hebreu: é um testemunho textual independente e um passo distinto e importante na história da revelação, um passo que trouxe consigo um encontro genuíno entre iluminação e religião, um passo que trouxe este encontro de forma tão decisiva que permitiu o nascimento e difusão do Cristianismo. Um profundo encontro entre fé e razão tem lugar agora, um encontro entre entre iluminação genuína e religião. Do próprio coração da fé cristã e, ao mesmo tempo, do coração do pensamento Grego então juntos pela fé, Manuel II podia dizer: Não agir “segundo o ‘logos’” é contrário à natureza de Deus.

Com toda a honestidade devemos observar que na Idade Média tardia encontramos tendência teológicas separatistas desta síntese entre o espírito Grego e o espírito Cristão. Em contraste com o assim chamado intelectualismo de Agostinho e de Tomás, surgiu com Dusn Escoto um voluntarismo que, nos seus desenvolvimentos mais tardios, levou a proclamar que nós só podemos conhecer a voluntas ordinata de Deus. Para além disto, é o domínio da liberdade de Deus, em virtude da qual, Ele poderia ter feito o oposto de tudo o que Ele realmente fez. Isto dá lugar a posições que se aproximam claramente das de Ibn Hazn e podem mesmo conduzir à imagem de um Deus caprichoso, que nem sequer está comprometido com a verdade e a bondade. A transcendência e alteridade de Deus são tão exaltadas que a nossa razão, o nosso sentido de verdade e de bem, já não são um autêntico espelho de Deus. Cujas possibilidades mais profundas permanecem eternamente inatingíveis e escondidas por detrás das suas decisões reais. Opostamente, a fé da Igreja insistiu sempre que entre Deus e nós, entre o Seu eterno Espírito Criador e a nossa razão criada existe uma analogia real, em que – como o 4.º Concílio de Latrão afirmou em 1215 – a dissemelhança permanece infinitamente maior do que a semelhança, porém, não ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus não se torna mais divino quando nós o empurrámos para longe de nós, num voluntarismo separador e voluntarista; pelo contrário, o Deus verdadeiramente divino é o Deus que se revelou como logos e, como logos, actuou e continua a actuar amorosamente por nós. Certamente, o amor, como S. Paulo diz, “transcende” o conhecimento e, por isso, é capaz de perceber mais do que só o pensamento (cf. Ef 3:19); apesar disso continua a ser o amor de Deus que é Logos. Consequentemente, a oração cristã é, citando outra vez S. Paulo – latreía logica – oração em harmonia com a Palavra eterna e com a nossa razão (cf. Rom 12:1).

Esta reaproximação interna entre a fé bíblica e a pesquisa filosófica Grega foi um acontecimento de importância decisiva do ponto de vista da história das religiões, mas também da história universal – é um acontecimento que nos diz respeito a nós mesmo hoje. Dada esta convergência não é surpreendente que o Cristianismo, apesar das suas origens e de alguns desenvolvimentos significativos no Oriente, adquiriu finalmente o seu carácter decisivo na Europa e permanece o fundamento daquilo a que podemos chamar com justeza, Europa.

A tese de que a herança Grega criticamente purificada forma uma parte integrante da fé Cristã tem sido confrontada com uma chamada à deshelenização do Cristianismo – uma chamada que tem dominado cada vez mais as discussões teológicas a partir do início da Idade Moderna. Vistos mais de perto, podemos observar três estágios no programa de dehelenização: apesar de interligados, são claramente distintos uns dos outros nas suas motivações e objectivos.

A deshelinização emerge em primeiro lugar em ligação com os postulados da Reforma no século XVI. Olhando para a tradição da teologia escolástica, os Reformadores viram-se confrontados com um sistema de fé totalmente condicionado pela filosofia, isto é, com uma articulação da fé com um sistema estranho de pensamento. Em resultado disto, a fé não mais aparece como uma Palavra histórica viva mas como um elemento de um sistema filosófico regulador. O princípio sola scriptura, por outro lado, pensou a fé na sua forma mais pura e primordial, como originalmente se encontra na Palavra bíblica. A Metafísica apareceu como uma premissa derivada de outra origem, da qual a fé tinha que ser libertada, de modo a poder tornar-se mais ela própria. Quando Kant afirmou que precisava de pôr o pensamento de lado de modo a dar espaço à fé, levou este programa a um radicalismo que os Reformadores nunca tinham sonhado. Deste modo, ele ancorou a fé exclusivamente na razão prática, negando-lhe o acesso à realidade como um todo.

A teologia liberal dos séculos XIX e XX deslizou para um segundo estádio no processo de deshelenização, com Adolf Harnack como seu representante mais significativo. Quando eu era estudante e nos meus primeiros anos de aprendizagem, este programa era muito influente mesmo na teologia católica. Tomou como seu ponto de partida, a distinção de Pascal entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abrão, Iasaac e Jacob. Na minha lição inaugural em Bona, em 1959, tentei abordar este assunto e não tenciono repetir aqui o que disse nessa ocasião, mas simplesmente descrever, pelo menos brevemente, o que era novo neste segundo estádio de deshelenização. A ideia central de Harnack era voltar simplesmente ao homem Jesus e à sua mensagem simples, por debaixo dos acréscimos de teologia e verdadeiramente de helenização: esta mensagem simples era vista como o culminar o desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria posto termo à adoração em favor da moralidade. Em última análise ele era apresentado como o pai de uma mensagem moral humanitária. Fundamentalmente, o objectivo de Harnack era voltar a trazer o Cristianismo para a harmonia com a razão moderna, libertando-o, numa forma de dizer, de elementos filosóficos e teológicos tais como a fé na divindade de Cristo e no Deus trinitário. Neste sentido, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento, tal como ele a via, rerstaurava à teologia o seu lugar na Universidade: a teologia, para Harnack, é qualquer coisa essencialmente histórica e, portanto, estritamente científica. O que ela é capaz de dizer criticamente acerca de Jesus é, por assim dizer, uma expressão da razão prática e consequentemente pode tomar o seu lugar de direito na universidade. Por detrás deste pensamento, jaz a auto-limitação moderna da razão, expressa classicamente por Kant nas suas “Críticas”, mas ao mesmo tempo, ainda mais radicalizada pelo impacto das ciências naturais. Este conceito moderno de razão é baseado, para o dizer brevemente, numa síntese entre Platonismo (Cartesianismo) e empiricismo, uma síntese confirmada pelo sucesso da tecnologia. Por um lado pressupõe a estrutura matemática da matéria, a sua racionalidade intrínseca, que torna possível compreender como a matéria funciona e como a usar eficientemente: esta premissa básica é, por assim dizer, o elemento Platónico na compreensão moderna da natureza. Por outro lado, há uma capacidade da natureza para ser explorada para os nossos propósitos e aqui, apenas a possibilidade de verificação ou falsificação através da experimentação pode conduzir à certeza. O peso entre estes dois pólos pode, dependendo das circunstâncias, mudar de um lado para outro, a ponto de, J. Monod, um forte pensador positivista, se ter declarado um convicto platónico/cartesiano.

Isto dá origem a dois princípios cruciais para a questão que levantamos. Em primeiro lugar, só o tipo de certeza que resulta da interacção entre elementos matemáticos e empíricos pode ser considerada científica. Algo que se reclame científico pode ser confrontado com este critério. Deste modo, as ciências humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia, tentam conformar-se com este canon de cientificidade. Um segundo ponto, importante para as nossas reflexões, é que pela sua própria natureza este método exclui a questão de Deus, fazendo-a aparecer como não científica ou como uma questão pré-científica. Consequentemente, deparamo-nos com uma redução do alcance da ciência e da razão que precisa de ser questionada.

Voltarei a este problema mais tarde. Entretanto, deve observar-se que deste ponto de vista qualquer tentativa de manter a pretensão teológica de ser “científica” acabaria reduzindo o Cristianismo a um mero fragmento da sua identidade inicial. Mas devemos avançar: se a ciência como um todo é isto e isto só, então é o próprio homem que acaba sendo reduzido, porque as questões especificamente humanas acerca da sua origem e do seu destino, as questões levantadas pela religião e pela ética, não terão então lugar no conjunto dos objectos da razão colectiva como definida pela “ciência”, assim compreendida, e devem, por conseguinte, ser relegadas para o domínio do subjectivo. O sujeito então decide, na base das suas experiências, aquilo que ele considera adequado em matérias de religião, e a “consciência” subjectiva torna-se o único árbitro do que é ou não ético. Deste modo, contudo, a ética e a religião perdem o seu poder de criar uma comunidade e tornam-se uma matéria completamente pessoal. Este é o perigoso estado de coisas da humanidade, tal como vemos a partir das perturbadoras patologias da religião e da razão que irrompem necessariamente quando a razão é de tal modo reduzida que as questões de religião e ética já não lhe dizem respeito. As tentativas de construir uma ética a partir das regras da evolução ou da psicologia e sociologia, acabam por se mostrar simplesmente desadequadas.

Antes de retirar as conclusões a que tudo isto conduz, devo referir brevemente o terceiro estádio de deshelenização, que está em progresso. À luz da nossa experiência com o pluralismo cultural, diz-se frequentemente hoje que a síntese com o Helenismo conseguida na Igreja inicial era uma inculturação preliminar que não deveria ser obrigatória para as outras culturas. Diz-se destas últimas que têm o direito de regressar à mensagem simples do Novo testamento, anterior àquela inculturação, de modo a poderem inculturar de novo de cada modo particular correspondente ao ambiente em que se encontram. Esta tese não é apenas falsa; é grosseira e imprecisa. O Novo Testamento foi escrito em Grego e traz consigo a impressão do espírito Grego, que já tinha atingido a maturidade enquanto se desenvolvia o Antigo Testamento. É verdade que há elementos de verdade na evolução da Igreja inicial que não têm que ser integrados em todas as culturas. Contudo, as decisões fundamentais tomadas acerca da relação entre fé e o uso da razão humana são parte integrante da mesma fé; são desenvolvimentos consonantes com a natureza da própria fé.

E chego assim à minha conclusão. Esta tentativa, a pinceladas largas, de uma crítica da razão moderna por dentro, que não tem nada a ver com recuar no tempo anterior ao Iluminismo ou rejeitar as conquistas da idade moderna. Os aspectos positivos da modernidade devem ser reconhecidos sem reservas: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que foram abertas à humanidade e ao progresso que nos foi concedido. O ethos científico, é, para além disso, - como mencionou o Magnífico Reitor – a vontade de obedecer à verdade e, deste modo, incorpora uma atitude que pertence às decisões essenciais do espírito do Cristianismo. A intenção aqui não é de entrincheiramento ou de criticismo negativo, mas de alargamento do nosso conceito de razão e da sua aplicação. Ao mesmo tempo que nos alegramos com as novas possibilidades que se abrem à humanidade, também vemos os perigos que decorrem destas possibilidades e devemos perguntarmo-nos como os poderemos ultrapassar. Seremos bem sucedidos só se a razão e a fé se juntarem de uma forma nova, se ultrapassarmos a auto-imposta limitação da razão ao empiricamente verificável, e se uma vez mais libertarmos os seus vastos horizontes. Neste sentido, a teologia tem lugar na universidade e dentro do largo leque de diálogo entre as ciências, não apenas como uma disciplina histórica e uma das ciências humanas, mas precisamente como teologia, como inquérito sobre a racionalidade da fé.

Só assim nos tornaremos capazes desse diálogo genuíno entre culturas e religiões tão urgentemente necessário hoje. No mundo ocidental domina largamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia nela baseadas são válidas universalmente. Contudo, as culturas do mundo profundamente religiosas vêm esta exclusão do divino da universalidade da razão como um ataque às suas mais profundas convicções. Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião para o âmbito das subculturas é incapaz de se inserir num diálogo de culturas. Ao mesmo tempo, como tentei mostrar, a razão científica moderna com o seu elemento intrinsecamente Platónico traz consigo uma questão que aponta para além de si própria e para além das possibilidades da sua metodologia. A razão científica moderna tem, muito simplesmente, que aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais prevalecentes na natureza como um dado, na qual a sua metodologia tem que ser fundada. Contudo, a questão porque isto tem que ser assim é uma verdadeira questão que tem que ser redireccionada pelas ciências naturais para outros modos e planos de pensamento – para a filosofia e a teologia. Porque a filosofia e, apesar de em modo diferente, a teologia, escutando as grandes experiências e descobertas das tradições religiosas da humanidade, e as da fé cristã em particular, é uma fonte de conhecimento, e ignorá-lo seria uma restrição inaceitável do nosso ouvir e responder. Aqui lembro-me de algo que Sócrates disse a Phaedo. Nas suas primeiras conversas, tinham surgido muitas opiniões filosóficas falsas e então Sócrates diz:”Seria facilmente compreensível que alguém ficasse tão aborrecido com todas estas noções a ponto de, para o resto da sua vida, desprezar e troçar de toda a conversa acerca do ser – mas deste modo ficaria privado da verdade da existência e sofreria uma grande perda”. O Ocidente tem, desde há muito tempo, sido ameaçado por esta aversão às questões que suportam a sua racionalidade e daqui para a frente só pode ser ainda mais prejudicado. A coragem de incluir todo o âmbito da razão, e não a negação da sua grandeza: é este o programa com que uma teologia enraizada na fé bíblica entra nos debates do nosso tempo. “Não agir razoavelmente, não agir com logos, é contrário à natureza de Deus” disse Manuel II, de acordo com a sua compreensão cristã de Deus, em resposta ao seu interlocutor persa. É a este grande logos, a este respiro da razão, que convidamos os nossos parceiros no diálogo de culturas. Redescobri-lo constantemente é a grande tarefa da universidade.

Aula Magna da Universidade de Regensburg, 12 de Setembro de 2006

NOTA: Versão para português da tradução inglesa do original alemão. O Papa pretende apresentar uma versão posterior deste texto, completa e com notas de rodapé. O presente texto, oferecido pelo Vaticano, deve ser considerado provisório.


O regresso

Depois de ocupações várias, recomeço a vida normal.

A novidade a partir de hoje é que os novos posts deixam de poder ser comentados. Isto deve-se, sobretudo, ao facto de, nos últimos tempos, ter recebido uma quantidade cada vez maior de comentários pouco dignos que, apesar de não serem publicados, são sempre chatos de receber.

Pedia o favor de me enviarem um mail sempre que quiserem expressar a vossa opinião ou acrescentar alguma coisa. Terei todo o gosto em recebê-los e em responder, sempre que for preciso.

4.9.06

O regresso à normalidade

O regresso a casa correu bem, pois todos chegamos moídos, mas satisfeitos. Apesar das tentativas do Bernardo de deixar a própria bagagem no estrangeiro, a companhia aérea decidiu que não quer a mochila dele e por isso vai-lha entregar a casa.
É tempo de dar graças a Nosso Senhor por tudo ter corrido tão bem e de fazer sérios propósitos de mais generosidade.

2.9.06

Madrid

A viagem está a correr bastante bem. Desde Glasgow até Madrid já fomos revistados várias vezes, obrigaram-nos a tirar cintos e sapatos outras tantas vezes e até já perguntaram a uma pessoa se era maior de idade.
O vôo de Madrid para Lisboa está ligeiramente atrasado (a nova hora prevista de chegada é 20.10, hora de Lisboa)

Heathrow

Conseguimos chegar a Heathrow, apesar do mau tempo e do transito. A confusão no aeroporto é bastante grande e as medidas de segurança também ajudam à festa. De momento, não há atrasos previstos.

O primeiro milagre...

... Foi o maior deles todos: a Santa Missa. Pusemos a viagem de regresso sob a protecção da nossa Santissima Mãe e fizemo-nos à estrada.

A hora prevista de saida de casa era às 5.3.h. E saímos. Esse foi outro milagre.

À saída de Glasgow, a carrinha que nos trouxe à estação de comboio, não pegou. Foi preciso empurrá-la e, depois de algumas tentativas e alguma oração pelo meio, lá pegou.

O comboio para o aeroporto de Prestwick, em Glasgow, deixa-nos mesmo ao lado do aeroporto. Como ainda é de noite, arriscamo-nos a ver o nascer do sol no avião.

1.9.06

Recovering: Day 1

Hoje começamos a recuperar as forças depois do esforço físico dos últimos dias.
Acordamos a uma hora confortável. O programa da manhã constou de oração, Santa Missa e pequeno almoço (que acabou por se transformar em almoço porque o café, a partir das 11h, só servia almoços... This is really Scotland!).

A seguir ao pequeno almoço, todos regressaram à base, onde houve palestra, seguida de briefing sobre a viagem de regresso a Portugal, amanhã, que vai ser a "cereja do bolo". Passo a explicar: amanhã temos que estar em Prestwick, um dos aeroportos de Glasgow, para apanhar o avião para Londres. Até Prestwick iremos de comboio, que sai da Central Station (de Glasgow) às 6.30h da manhã. O avião sai às 8.15h da manhã de Glasgow e aterra em Stansted, Londres, às 9.15h. Depois fazemos uma viagem de autocarro para Heathrow (que demorará, mais ou menos, duas horas) para às 14.05 apanharmos o avião para Madrid. A chegada prevista a Lisboa é às 19.35h (horas locais). Por isso, amanhã há que rezar muito e correr depressa para ninguém se perder.

Hoje à tarde, as tropas dispersaram. Uns resolveram ficar por Glasgow, outros resolveram ir a Edimburgo, conhecer a cidade.

Amanhã, a alvorada está prevista para as 5h da manhã, pois daqui até ao aeroporto, demoraremos cerca de uma hora.

31.8.06

Glasgow again

Regressámos a Glasgow. A chuva marcou fortemente a viagem de regresso, para não sentirmos a falta dela quando regressarmos a Portugal.
Esta é um noite para recuperar as forças.

A despedida de Eigg

Ontem à noite, a carrinha decidiu fazer das suas, e deixou de funcionar. Por isso, depois de jantar, um grupo de eleitos decidiu, voluntariamente, fazer a pé as 4 milhas que separam o sítio onde jantámos do sítio onde estávamos alojados.

Hoje de manhã, celebrámos a Santa Missa votiva da Santissima Eucaristia, em acção de graças pelo facto de tudo ter corrido pelo melhor. A Igreja ficou bastante mais acolhedora depois das pinturas e a dignidade do templo subiu vários degraus.

Apesar do cansaço e da chuva, depois da Santa Missa houve tempo para as fotos de despedida. Fomos agradecendo às pessoas o modo acolhedor como nos receberam.

Entretanto, um dos habitantes conseguiu pôr a carrinha a funcionar hoje de manhã e foi possível pô-la no ferry.

Todos embarcamos no ferry para mallaig, uma cidade costeira, onde vamos apanhar o comboio para glasgow, já que a carrinha não oferece qualquer esperança de nos levar até lá.

30.8.06

Working hard

Hoje foi o dia das últimas pedras.

O dia começou com a oração pessoal. Meia hora de diálogo com o Senhor. Seguiu-se a Santa Missa.

E depois veio mais um dia de trabalho intenso, que começou por volta das 10h da manhã e só terminou às 9h da noite.

Terminou-se a pintura exterior. Nem a chaminé escapou ao branco da tinta (sim, a Igrejatem uma chaminé).

Por dentro, também foi terminada a pintura e o arranjo das paredes. Por fim, o sistema de drenagem à volta da Igreja, que vai impedir que as águas danifiquem as paredes da mesma, também ficou pronto. Foi necessário ir buscar brita, várias vezes, à praia. Houve dois habitantes da ilha que trouxeram os próprios tractores e deram uma mão.

Foi um dia extenuante para todos mas, ao mesmo tempo, não diminuiu o entusiasmo por fazer as coisas com a maior perfeição humanamente possível.

Ao contrário dos dias anteriores, em que o tempo ia alternando entre sol e chuva miuda, hoje esteve um dia cinzento, carregado de nuvens. Ao longo do dia, fomos pedindo a Nosso Senhor que nos desse tempo para terminar os trabalhos que estavam a decorrer. E a chuva acabou por aparecer só quando já estava praticamente terminado.

A Mary e a Peggy, duas das senhoras em casa das quais ficámos alojados, prepararam um jantar reforçado. Acho melhor ir jantar antes que o clero fique sem comida (o que, dado o peso, até nem seria uma coisa muito má).

29.8.06

Aqui está a prova...

... Que isto não são só férias.

Os trabalhos correram melhor do que o previsto. O muro exterior já está quase pronto, graças também à ajuda de um habitante da ilha, especialista na matéria. Mas o trabalho de braços é quase todo português.

Afinal o tempo permitiu que se começasse a pintar o exterior. O fachada da Igreja já teve a primeira demão e amanhã terá a segunda.

Hoje o dia termina com o jantar no Community Hall.

O dia do cansaço

Hoje foi o primeiro dia em que fizemos oração sem a presença de Nosso Senhor no Sacrário, pois ontem, depois da Santa Missa, tivemos que O retirar por causa das pinturas interiores.

De seguida, celebrámos a Santa Missa e fizemos a acção de graças.

Hoje o dia está de chuva, por isso não se vai poder pintar o exterior, mas o interior deve ficar pronto.

Já se começou a escavar um pequeno poço para onde confluirão as águas do sistema de drenagem.

O cansaço começa a ser intenso, mas, ao mesmo tempo, vemos a alegria destas pessoas da ilha e isso dá-nos mais força para continuar.

28.8.06

Reconstruindo

Como habitualmente, dia começou com meditação e a Santa Missa, presidida pelo Fr. Stephen.

Já quase que conseguimos cumprir o horário. O facto de estarmos alojados por várias casas relativamente distantes umas das outras e o hábito inglés de tomar um pequeno almoço tão consistente que dá forças para o dia todo não tem ajudado muito, mas hoje o atraso foi só de dez minutos.

Em seguida, continuaram-se os trabalhos. Uma vez que estava a chover, avançou-se com a pintura da capela-mor, a sacristia também já está quase pronta.

Depois de almoço houve palestra e outros meios de formação. E, de tarde, já com sol, continuaram-se os trabalhos no exterior. Um grupo, com a ajuda de um dos habitantes da ilha, está a reconstruir o muro que circunda a Igreja. Outro grupo continua a escavar o sistema de drenagem das águas, e as pinturas do interior também continuaram.

O Fr. Stephen regressou ao continente, pois tem outras obrigações pastorais. Voltaremos e encontrá-lo em Glasgow, antes de regressarmos a Portugal.

Amanhã continua o trabalho.

27.8.06

Jantar Portugal

Depois de um dia de trabalho, houve tempo para uma breve palestra e, depois seguiu-e o jantar, que foi na única tea room da ilha. Depois do jantar, cantamos musicas portuguesas e os simpaticos escoceses responderam com algumas melodias tipicas da Escócia.

Living in Eigg

Hoje de manhã, o Fr. Steven presidiu à Santa Missa dominical, em inglês. Além dos portugueses, estavam presentes vários dos habitantes da ilha. A última vez que tinha sido celebrada a Santa Missa aqui na ilha tinha sido no passado mês de Junho. O sacerdote que costuma vir aqui celebrar a Santa Missa é o pároco de duas paróquias que ficam à beira mar, na zona continental da Escócia e só consegue vir aqui uma vez por mês.

A ilha tem, no total, 85 habitantes. Ontem, depois de termos chegado e de nos termos instalado, fomos jantar ao Community hall. Depois do jantar, tivemos um encontro para programar o trabalho nos próximos dias. O jantar foi feito pela Mary e pela Peggy, duas senhoras já de uma certa idade que se têm esforçado para que nada nos falte. Nesse encontro, a Mary contou-nos que a ilha não é propriedade do Estado Escocês, mas sim de uma empresa: a Eigg Trust Association. Todos os actuais habitantes de Eigg que têm mais do que 18 anos têm acções nesta empresa. Ou seja, na prática, estes habitantes compraram esta ilha ao governo escocês por um milhão e meio de libras há alguns anos atrás e são eles que gerem o património e a vida da ilha.

Depois da Santa Missa de hoje de manhã, começou o trabalho de reconstrução da Igreja. Hoje começaram a ser feitos os arranjos interiores, para preparar a pintura da capela mor e da sacristia, ambas bastante danificadas.

Também é necessário fazer um sistema de drenagem da água, pois a zona envolvente da Igreja está bastante pantanosa. E, por fim, é necessário pintar todo o exterior. Esperemos que o tempo o permita.

Hoje o dia começou com chuva. O sol acabou por aparecer e, ao final da tarde, tivemos novamente chuva. Mesmo assim, houve uns voluntários que foram experimentar a água do mar, pois perto da Igreja há uma baía lindíssima, com uma areia muito fina que convida a um mergulho.

26.8.06

A Igreja que vamos ajudar a reconstruir

Esta é a Igreja.

O interior está bastante bem conservado, mas o exterior está muito danificado. São necessários pequenos arranjos e é preciso pintá-la.

O tecto da capela mor é de madeira. Tem um sacrário muito bonito, um altar de madeira digno. O revestimento das paredes é de tijolo, muito típico nesta zona.

Ao lado da Igreja está uma casa de habitação também está muito danificada.

Destino: Ilha de Eigg

E finalmente chegamos a Eigg!

Ja estamos devidamente alojados, distribuidos por varias casas.

O ferry deixou-nos de uma parte da ilha, e estamos alojados do lado contrário àquele onde o ferry nos deixou. Alguns fizemos esse percurso no atrelado de um tractor de um senhor da ilha, outros foram na carrinha que nos trouxe de Glasgow e que veio connosco no ferry.

À chegada, estava sol e não encontrámos muito frio até ao momento.

Fomos muito bem recebidos por todos. Pelo que deu para ver, há bastante malta nova, que se encontra ainda em férias escolares.

Hoje, depois de jantar, temos um meeting para combinar o programa dos próximos dias.

Destino: Ilha de Eigg

A ilha de Eigg vista do mar

Highlands

A manhã começou com a Santa Missa. Além dos portugueses, juntaram-se ao grupo o Felix e o Dominic, dois universitários de Manchester que nos vão acompanhar até à ilha de Eigg.
A viagem de Glasgow até essa já mundialmente conhecida faz-se em dois carros e uma carrinha de dezasseis lugares. No total, vamos em direcção a Eigg, 25 pessoas: 21 portugueses, dois ingleses, um escocês e um sacerdote que, apesar de ter nascido e crescido em Portugal, está há muitos anos a morar no Reino Unido.
Para chegarmos à ilha, teremos que fazer uma breve viagem de ferry. Está previsto chegarmos ao destino a meio da tarde.
As paisagens por onde vamos passando são de uma beleza inacreditável, apesar da chuva não permitir ter um grande ângulo de visão.

25.8.06

Way to Scotland

A alvorada foi mais cedo do que é costume. Às 7h tinhamos que apanhar o comboio para Glasgow. Graças a Deus, todos conseguimos chegar a tempo.
A rede ferroviaria é, de facto, excelente e o comboio onde viajamos tem imenso conforto.
A chegada a Glasgow está prevista para as 12.36h. Provavelmente estará alguém à nossa espera (sem ser a policia, esperemos).
Este tempo de aparente inactividade no comboio serve para alguns descansarem. Eu aproveitei para fazer a oração, rezar o breviário pela santificação dos sacerdotes e, enquanto espero pelos meus fregueses vou fazendo companhia à minha boa Mãe do Céu.

24.8.06

London: day two

O dia começa novamente com oração. Diante do Senhor, abrimos os nossos corações, sabendo que Ele nos escuta: "Pedi e recebereis..."
Segue-se a Santa Missa e, depois, alguns minutos de acção de graças.
E, depois de acabarmos o pequeno almoço, vamos à descoberta da cidade. Não chove, mas as ameaças são mais do que evidentes. Mais um dia dedicado à cultura.

23.8.06

Tudo muda

Hoje tive oportunidade de visitar alguns templos anglicanos. Pelo meio, também pude entrar nalguma Igreja católica. A sensação que se tem ao entrar nos primeiros é a mesma que quando se entra num museu. Falta-lhes Tu, Senhor. E isso muda tudo. Onde estas Tu, tudo o resto é superfluo.

O regresso à normalidade

O dia começou com a oração, seguida de Santa Missa.

Seguiu-se, o pequeno almoco e hoje é dia de visitar a City: British Museum, ouvir um concerto coral em St. James Park, conhecer a Abadia de Westminster, acertar a hora no Big Ben e ver ao longe a House of Parliament.

Há que recuperar forcas antes de deitarmos mão ao trabalho a sério.

Muito obrigado pelas orações. São muito, mas muito bem vindas.

22.8.06

London

A chegada à City foi absolutamente normal. Heathrow estava o aeroporto movimentado do costume mas, à primeira vista, não deu para notar nada fora do normal.
Chegámos, sem grande novidade ao local onde nos vamos hospedar. Pude celebrar a Santa Missa com toda a tranquilidade.
Não é um acaso que tudo tenha corrido tão bem. É que hoje é a festa de Nossa Senhora Rainha.

As aventuras do costume

O bilhete do Bernardo estava com um nome trocado. O bilhete tinha um Vasconcelos e ele, de Vasconcelos, não tem mesmo nada.
Ao chegarmos a Madrid, foi necessário mudar o bilhete, se não, corria o risco de ficar fazer companhia a nuestros hermanos em vez de vir para terras de Sua Majestade. A solução do problema não estava a ser fácil. A certa altura, estava a questão num impasse, quando decidimos deitar mão à solução do costume: rezar.
O problema não só se resolveu como ainda puseram o Bernardo em primeira classe.
A oração é, de facto, omnipotente.

Madrid

A paragem em Madrid serve para nos irmos conhecendo melhor. Ao contrário do que imaginavamos, não tivemos grandes problemas até agora. A viagem de avião foi absolutamente normal. Londres espera-nos.

Confusão organizada

O processo de pôr um comboio em andamento é sempre complicado.

Este workcamp envolve universitários de Braga, Porto, Viseu, Coimbra e Lisboa. Vamos cheios de vontade de ajudar, e com um alegria enorme no coração.

Repetem-se, novamente, as palavras da Escritura: "Há mais alegria no dar do que no receber"

23.30h: Briefing com as primeiras informações sobre a viagem, horários e afins. Amanhã, as hostilidades abrem oficialmente às 6h, com o check-in.

Omnia in bonum!

21.8.06

Viagem

Inicio mais uma viagem, uma viagem que é uma missão. Pediram-me para acompanhar um grupo de universitarios que vai reconstruir uma Igreja numa ilha ao lado do Reino Unido. A minha missão é acompanha-los com a minha oração e com a minha disponibilidade para os atender.
Estou convencido que vou receber mais do que aquilo que vou poder dar.
Há já várias semanas que rezo por esta viagem, por cada um dos que vamos.
E é isso que também peço a quem, por aqui, for passando.

19.8.06

O desafio da visão positiva

O Cristianismo, o Catolicismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante que evidenciemos isso novamente, porque essa consciência, hoje, desapareceu quase completamente.
Tem-se ouvido falar tanto sobre o que não é permitido, que agora é preciso dizer: "Mas nós temos uma ideia positiva a propor: o homem e a mulher foram feitos um para o outro e existe uma escala - sexualidade, eros e agape, que são as dimensões do amor, e assim se forma, antes o matrimónio como encontro repleto de felicidade, entre o homem e a mulher, e depois, a família, que garante a continuidade entre as gerações, onde se realiza a reconciliação das gerações, e onde as culturas também se podem encontrar.
Antes de tudo, portanto, é importante colocar em relevo aquilo que queremos.
Em segundo lugar, pode-se ver também, porque certas coisas nós não as queremos. Eu creio que seja preciso reconhecer que não é uma invenção católica, o facto que o homem e a mulher sejam feitos um para o outro, a fim de que a humanidade continue a viver: todas as culturas, no fundo, sabem disso.
No que se refere ao aborto, ele não entra no sexto, mas no quinto mandamento: "Não matar!". E isso nós devemos pressupor como óbvio, reafirmando sempre que a pessoa humana tem início no seio materno e permanece pessoa humana, até ao seu último suspiro. Por isso, deve ser sempre respeitada como pessoa humana. Mas isso torna-se mais claro se, antes, for dito o que é positivo.

15.8.06

Assunção da Virgem Santa Maria aos Céus


Maria foi elevada ao céu em corpo e alma: também para o corpo existe um lugar em Deus. Para nós o céu já não é uma esfera muito distante e desconhecida. No céu temos uma mãe. E a Mãe de Deus, a Mãe do Filho de Deus, é a nossa Mãe. Ele mesmo o disse. Ele constituiu-a nossa Mãe, quando disse ao discípulo e a todos nós: "Eis a tua Mãe!" No céu temos uma Mãe. O céu está aberto, o céu tem um coração.

1.8.06

Paz

"Não é necessário procurar um caminho para a paz... A paz é o caminho!"
Mahtma Ghandi
P.S. Caro Pe. João António, muito obrigado pela indicação do autor!

31.7.06

Um ano depois

Um ano depois, dou-Te graças Senhor e, novamente, peço-te desculpa pelas minhas misérias. E peço-te mais: mais Graça, mais desejos de conversão própria, mais Amor, a Ti e, por Ti, a todos aqueles que passam por mim.
Possam as pessoas ver, através de mim, um raio da Tua luz, um pouco de calor da Tua infinita misericórdia.
Que, apesar de mim, apesar de mim, Te reconheçam como o Senhor das suas vidas e, que os meus defeitos, as minhas fraquezas, os meus fracassos nunca sejam ocasião de as pessoas se afastarem de Ti. Pelo contrário, sejam ocasião para rezarem mais por mim e, desse modo, reconhecerem que nada é mérito meu: a honra, a glória e o louvor são todos, todos teus, Senhor da minha vida.

29.7.06

Sacerdócio

Todos os anos, alguns jovens e outros menos jovens, decidem comprometer a própria vida no sacerdócio.
Este compromisso não surge do nada. Pressupõe uma caminhada de vários anos, de estudos filosófico-teológicos, de aprofundimento humano e espiritual.
O caminho está sempre cheio de encruzilhadas, de dúvidas, de dificuldades. Nesses momentos, somos tentados a sentir-nos como os apóstolos no barco que é açoitado por ventos impetuosos. Mas, assim que recuperamos a presença de Deus, assim que fazemos a experiência do perdão e da sinceridade na direcção espiritual, as dúvidas vão-se transformando em certezas, as dificuldades transformam-se em oportunidades de robustecer a decisão e as encruzilhadas transformam-se em ocasião de amadurecer a vontade.
No dia da ordenação diaconal, assume-se a obrigação do celibato. Ao contrário do que muitos, sobretudo os que o não vivem, possam afirmar, o celibato não é uma obrigação. Não é um "não poder", mas sim um "poder amar a Cristo com um coração indiviso". É um poder amar a cada pessoa como Cristo ama. Só quem passa por essa experiência, consegue perceber como o coração vai crescendo até amar cada pessoa, deixando o próprio egoismo de lado. Não é fácil. Nunca foi e nunca o será. Mas é possível!
A ordenação sacerdotal não é um fim em si mesma. É, pelo contrário, o momento em que se inicia um de dois caminhos: ou o caminho da santidade, ou o caminho da mediocridade.
O facto de Deus querer usar as minhas mãos, a minha voz e a minha vontade para se prender num pedaço de pão por amor dos homens é um dom do qual não sou digno, que eu, na minha miséria, não mereço. É Ele que continua a dar esse dom, todos os dias, a todos os sacerdotes.
Hoje, no dia em que nascem três novos irmãos no sacerdócio, em que esta família presbiteral se alarga, rezo pela fidelidade daqueles que dentro de poucas horas receberão este dom.
E, conservo na memória as palavras que eu próprio ouvi:
"Toma consciência do que virás a fazer;
imita o que virás a realizar;
e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor"

28.7.06

Diálogo ecuménico

A Conferência Mundial Metodista, que congrega cerca de 70 milhões de fiéis, aderiu à Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, assinada em 1999 pela Igreja Católica e pela Federação Luterana Mundial.
Esta declaração eliminou o principal elemento teológico de divisão entre católicos e luteranos e metodistas.
Apesar de ter passado quase despercebido, este passo concreto é muito importante, pois faz cair um muro teológico que não permitia que se pudessem debater outras questões, também importantes.
Ao mesmo tempo, revela o real interesse de todas as partes em chegar à unidade, também visível, pedida por Cristo a todos os seus discípulos.

Mais informações em:
Asia News
ICN Network

Se ele acredita... eu também

Através do Adro, fiquei a conhecer este projecto, que dou também a conhecer.

A Casa João Cidade é uma Associação socio-terapêutica, nascida para acolher pessoas com deficiência mental. Será constituída por casas onde grupos de pessoas com deficiência viverão em ambiente familiar e por um bloco de “oficinas”, onde funcionarão uma série de ateliês e actividades, no quadro da socio-terapia curativa, pensadas para responder às necessidades específicas destas pessoas.A construção das oficinas está quase terminada. As residências virão a seguir.É aqui que tu entras. Sim, tu, que estás a ler isto! Não queres ajudar? Vai lá fazer uma visita e verás que há lugar para ti, por exemplo no Clube dos Mil.
E se não puderes participar pessoalmente, divulga a ideia. Eu acredito neste projecto.

23.7.06

Pastores

"Diz o Senhor: «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!». Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que apascentam o meu povo:
«Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções."

Jer 23, 1-2
Dentro da vida de um sacerdote, o exame de consciência diário ocupa um lugar fundamental. É nesses breves minutos que contemplamos o que Deus quer de nós e qual foi ou está a ser a nossa correspondência. Não é um exercício narcisista de introspecção psicológica. É, sim, uma necessidade de amor.
«Tem sinceridade "selvagem" no exame de consciência; quer dizer, valentia. A mesma com que te olhas ao espelho, para saber onde te feriste ou te sujaste, ou onde estão os teus defeitos, que tens de eliminar.»
S. Josemaria Escrivá, Sulco, 148

22.7.06

Credo, Domine, sed credam firmius!

"Não permitais que o tempo, que o Senhor vos dá, transcorra como se tudo acontecesse por acaso. S. João disse-nos que tudo foi feito em Cristo. Por isso, acreditai fortemente n'Ele. Ele guia a história tanto dos indivíduos como da humanidade. Cristo respeita certamente a vossa liberdade, mas, em todos os acontecimentos aprazíveis ou amargos da vida, não cessa de pedir-nos que acreditemos n'Ele, na sua Palavra, na realidade da Igreja, na vida eterna!

Por isso, nunca penseis que, a seus olhos, sois uns desconhecidos, um simples número duma multidão anónima. Não, cada um de vós é precioso aos olhos de Cristo; Ele conhece-vos pessoalmente, ama-vos ternamente, mesmo quando não vos apercebeis disso."

João Paulo II,
Rito de acolhimento dos jovens, 15.08.2000
Desta citação tocou-me o facto do Santo Padre ter pedido aos jovens para acreditarem na realidade da Igreja. Não de uma Igreja feita à minha medida, como eu acho melhor, mas sim na Igreja fundada por Jesus Cristo, que subsiste, segundo o Concílio Vaticano II, na Igreja Católica (cfr. Const. Lumen gentium, 8).
Ao ler os vários comentários ao recente encontro das famílias, em Valência e, mais em geral, nas atitudes perante a Igreja, não critico quem quer que seja. Mas tenho repetido para mim mesmo e como oração ao Senhor: Credo Ecclesiam unam, sanctam, catholicam, apostolicam!

Recomeçando

Depois de algum tempo sem acesso às auto estradas da comunicação, declaro novamente reaberto este blog.
Peço desculpa aos que foram deixando comentários ao longo das últimas semanas. Depois de as ler, decidi não as publicar por já ter passado o contexto em que foram escritas. Espero que me perdoem esta decisão.

19.6.06

Pausa



Encontrei esta lindíssima imagem na Signatura Apostólica.

Com este post, este blog entra numa mini pausa. Regresso a Portugal, tomo conta do novo encargo pastoral que o meu santo Bispo me confiou e, por isso, durante algum tempo, não terei tempo para o o blog.

Deixo os melhores cumprimentos a quem for passando e o pedido que rezem por este pobre pecador.

15.6.06

Santa Missa

"Todas as boas obras reunidas não equivalem ao santo sacrifício da Missa, porque elas são obras dos homens, e a missa é obra de Deus. O martírio não é nada em comparação: é o sacrifício que o homem fez a Deus da sua vida; a missa é o sacrifício que Deus fez ao homem do seu corpo e do seu sangue."
S. João Maria Vianney, Pensées choisies du saint curé d’Ars et petites fleurs d’Ars, Téqui, Paris, p. 71

"Deus apresenta-se a nós sob a insignificante aparência de um pedaço de pão, porque não se revela na sua glória, porque não se impõe irresistivelmente, porque enfim, desliza sobre a nossa vida como uma sombra, ao invés de fazer retumbar o seu poder sobre as coisas… .
Quantas almas oprimidas pela dúvida, porque Deus não se mostra como elas esperam.”
Jacques Leclerq, Seguindo o ano liturgico, p. 100

14.6.06

Uma questão de Amor

Lembremo-nos da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever - ou seja o que for - obriga-as a afastar-se uma da outra. Não podem, portanto, continuar uma junto das outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja, é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma fotografia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

Ora o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar a sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a alma e a sua Divindade.
S. Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, 83

13.6.06

Roteiro turístico

E porque nem só de doutrina vive este blog, hoje fica a sugestão de uma paragem obrigatória para quem visita Roma.

Chama-se Instituto de Santo António dos Portugueses, fica situado no centro histórico da cidade.
Existe, juridicamente, desde o séc. XIII. Nasceu da boa vontade de uma senhora e de um bispo. Ao longo dos anos, foi hospedagem, hospital, local de encontro entre a cultura portuguesa e a cultura italiana.

A Igreja, dedicada a Santo António, é uma jóia plantada no centro de Roma e em nada fica a dever, em beleza, às outras Igrejas que lhe estão perto.



Desde 1995, Reitor do Instituto é o Mons. Agostinho Borges, da Diocese de Vila Real, que tem desempenhado um trabalho excepcional, seja na promoção da cultura portuguesa, seja no acolhimento a tantas e tantas pessoas que vão passando por aquela Igreja.

Sou testemunha da evolução qualitativa do Instituto ao longo dos últimos anos, evolução na qual participam aqueles que lá trabalham todos os dias (o Dr. Antonio Cimini, a Cidália, a Engrácia, a Cipriana...) e que fazem com que, imediatamente nos sintamos em casa.

Deixo o meu agradecimento e reconhecimento ao Instituto e ao seu Reitor pelo facto de terem jogado um papel importante na minha formação a caminho do sacerdócio e pelo exemplo de hospitalidade que levo no coração.

Vem isto a propósito de ser dia de Santo António, padroeiro da Igreja. O Instituto é um óptimo exemplo do diálogo entre fé e cultura no qual a Igreja tem que ter uma palavra a dizer.

Dados:
Instituto de Santo António dos Portugueses
Via dei Portoghesi, 2
00186 Roma, Itália
Tlf.: (0039) 0668802496

Email: reitor@ipsa-roma.com

12.6.06

A verdade e a justiça

«O mundo tem necessidade da verdade que é justiça, e da justiça que é verdade»
Pio XII, Alocução à Sagrada Rota Romana, 1.10.1942, n. 5
A verdade não se torna força da paz senão através da justiça. A Sagrada escritura, falando dos tempos messiânicos, assevera por um lado que a justiça é fonte e companheira da paz: nos seus dias florirá a justiça e a abundância da paz (Sl. 72, 7), e por outro, sublinha repetidamente o vínculo que associa a verdade à justiça: Da terra brotará a verdade, do céu há-de olhar a justiça (Sl. 85, 12) e ainda: Governará a terra com justiça e os povos com a sua verdade (Sl. 96, 13).
João Paulo II, Alocução à Sagrada Rota Romana, 4 de Fevereiro de 1980, n. 1

11.6.06

Eu e Tu

Não sou modelo para ninguém. Nunca o fui.

Há pessoas muito mais trabalhadoras, inteligentes, santas, cuja oração é muito mais eficaz do que a minha e cujo apostolado é muito mais fecundo.

Todos os dias toco de perto a minha miséria, os meus defeitos. Sei o que deveria fazer, mas muitas vezes escondo-me no meu mundo. Devia amar-Te acima de tudo, amar os outros como tu amas, não só os meus amigos, mas também aquelas pessoas que me incomodam, que tantas vezes se aproximam de mim, na esperança de ver um raio da Tua luz, e acabam por tocar as trevas da minha indiferença.

É ao contemplar o Teu Amor e o meu egoísmo, a Tua misericórdia e o meu juizo, tantas vezes precipitado sobre as situações e as pessoas, que não preciso de nenhuma lei que me mande confessar.

Não me confesso por sentir a necessidade de me sentir perdoado. Confesso-me pois toco o meu pecado constantemente. Na confissão, apesar de todas as partes serem importantes, procuro renovar sempre o arrependimento, para não cair no perigo da rotina. Confesso-me porque foste Tu a pedir a todos, e não só a alguns, que nos convertessemos, que acolhessemos o vinho novo do Teu amor em odres novos.

Por isso, não preciso de nenhuma lei que me mande confessar regularmente. Basta olhar para a minha vida de pobre pecador e contemplar o Teu infinito amor.

Via provocationis e o Código Da Vinci

Encontrei este excelente post do Pe. João António, sacerdote que muito admiro e respeito, e do qual já tive a oportunidade de ouvir e de aprender.
"1. Não sou dos que se preocupam demasiado com o êxito do Código da Vinci.
Não me diverti com a história nem achei original o argumento. Acresce que o Código se descodifica no subtítulo: romance!
Não é, por conseguinte, uma obra de ficção que vai abalar as convicções mais fundas. Se o abalo existe, então é porque a solidez das convicções não era suficiente. Em qualquer caso, temos de lidar com estas coisas com serenidade, aprendendo a temperá-las com algum humor.
Aliás, se aplicássemos o filão que ele usa na sua obra (ver algo de obscuro por detrás daquilo que nos aparece pela frente), até poderíamos dizer que Dan Brown será um católico fervoroso, porventura membro do Opus Dei!
É que com o seu Código da Vinci (e com o filme que nele se inspira), conseguiu que muita gente se interessasse pela figura de Cristo e dos Apóstolos, pela Igreja e, mais concretamente, pela prelatura fundada por S. Josemaria Escrivá. Neste aspecto, alcançou ele mais do que nós, padres, com a pregação, a catequese, as reuniões ou os cursos. São muitos os que, lendo o livro e vendo o filme, se aproximam com perguntas de todo o género e inquietações de toda a espécie.

2. Dan Brown não será católico e acumula até vastas imprecisões sobre o que se passa na Igreja. Umberto Eco (que não é propriamente um crente) recusou encontrar-se com ele para não dar cobertura a tais imprecisões.
Mas o certo é que trouxe o fenómeno religioso e o facto cristão para o top das vendas e para o centro do debate. Foi a partir da sua obra que muitos teólogos e exegetas começaram a ser requisitados como nunca a fim de partilharem com o grande público as suas pesquisas.
O que tudo isto mostra é que não foi Dan Brown que trouxe algo de novo. O que é novo é o tempo. O que é nova é a sensibilidade. É que a nossa época mostra-se (quiçá como nenhuma outra) deveras propensa à suspeita, à provocação.
Regra geral, partimos do princípio de que há sempre algo que nos querem esconder. Nem a realidade escapa a esta atmosfera: esconde-nos, ela também, alguma coisa. A própria arte não é desvelamento: é cifra, código. Não admira que, neste contexto, demos mais crédito ao irreal que ao real.
Já nos anos 60 do século passado, Xavier Zubiri chamava a atenção para a capacidade que o homem tem de «forjar o irreal». O problema — como muito bem ele notou — é que, estando o homem no mundo, o irreal por ele forjado emerge também «dentro do mundo real».
Ou seja, é muito difícil escrutinar e discernir entre o real e o irreal. A páginas tantas, tomamos o real por irreal e o irreal por real. As fronteiras diluem-se e a distinção acaba por se apagar completamente. Como encarar a situação? Ficar de fora?

3. Classicamente eram três as vias para o homem chegar a Deus por si mesmo. A via afirmationis destacava a afinidade entre Deus e o mundo. A via negationis apostava no contraste fazendo assim sobressair a infinitude divina. A chamada via eminentiae olhava para as perfeições do homem e deduzia que, em Deus, elas se encontravam de forma sublime, eminente.
Hoje em dia, tem cada vez maior acolhimento aquela que poderíamos denominar via provocationis. Não será a mais correcta, nem tão-pouco a mais viável, mas não há dúvida de que se tem revelado tremendamente eficaz.
Os factos são teimosos e os resultados estão à vista. Anda um teólogo, um exegeta, um bispo, um padre, um missionário ou um catequista a anunciar Jesus Cristo e, em vastos meios, a indiferença é o sentimento generalizado. Aparece uma ficção do teor do Código da Vinci e a indiferença abre caminho a uma curiosidade descontrolada. E não falta até quem procure o teólogo, o exegeta, o bispo, o padre, o missionário e o catequista para perguntar, para contestar, para dialogar.

4. É a melhor via? É uma via. E se é a que tem mais transeuntes, não os podemos deixar sozinhos, sem interlocutor. O cristão só tem um lugar: o lugar onde o homem se encontra…"

10.6.06

Nomeação do novo Bispo de Viseu

O Pe. Ilídio Leandro, sacerdote do clero da Diocese de Viseu, foi nomeado Bispo da mesma Diocese, sucendendo, deste modo, a D. António Marto.
A ordenação episcopal será no próximo dia 23 de Julho, pelas 16.30h, na Sé de Viseu.
Desejam-se as maiores felicidades ao novo Bispo no desempenho do serviço que hoje lhe é confiado.
Links:

Dia de Portugal

Hoje comemora-se o dia de Portugal e das comunidades portuguesas.

Liturgicamente, é o dia do Santo Anjo de Portugal.

"Sendo o Anjo o celeste despertador dos homens e dos povos para a consciência dos valores mais altos que devem reger a vida e o destino da História, na medida em que nos afastámos da ideia de que temos um Anjo connosco, e logo desde os alvores de Reino, ao qual devemos atenção, respeito, devoção, nos fomos desviando de nós próprios.

Por alguma razão Afonso Henriques foi baptizado na capelinha de S. Miguel em Guimarães, para fazer dele o Anjo protector de Portugal, a pontos de, em Coimbra, a Universidade, mãe do nosso pensamento e da nossa cultura, nos melhores e mais altos e puros tempos da nossa História pátria, ser o Anjo apontado como patrono, figurando no selo - chancela daquela escola-mater.

Leão XIII, ajoelhado um dia diante do sacrário, sentiu um certo baque no coração, e logo ali pediu com que escrever; e, mesmo no genuflexório, redigiu uma oração que antigamente se dizia no fim de todas as missas e que rezava assim: «S. Miguel Arcanjo e defendei-nos nesta luta contra todas as insídias e ciladas do inimigo»...

Não será que, deixando de se rezar a oração, se perdeu também, de algum modo, o sentido do Anjo?

Fátima veio recordar-nos mais uma vez que o Anjo de Portugal faz parte da nossa História. E Pio XII mandou inserir no calendário a comemoração do Anjo, precisamente no dia de Portugal, 10 de Junho.

Foi tradição em Portugal, desde tempos antigos, que a festa e procissão do Anjo se equiparasse em luzimento, esplendor e devoção à do próprio Corpo de Deus. Já D. Manuel I, a instâncias do povo, da nobreza e do clero, pediu à Santa Sé a instituição de uma festa, que passaria a ser promovida a expensas da própria Câmara. E Leão X assim o determinou, realçando liturgicamente, e conforme a devoção do povo português o pedia, a solenidade do nosso Anjo Guardador.
Pode ter-se perdido Portugal do seu Anjo, mas o Anjo não se perdeu de Portugal."

Manuel Ferreira da Silva,
Editorial da Agência Eclésia, 28.05.2004

História

A Igreja, em toda a sua história, sempre sofreu ataques, perseguições, calúnias e incompreensões. Passou por cismas, superou a fraqueza dos próprios membros, teve que lutar, muitas vezes, pela própria independência.
Não sou triunfalista. Se ainda hoje a Igreja subsiste, não é por mérito dos homens, mas sim por dom de Deus.

9.6.06

A capacidade humana

"A Igreja reconhece, com plena sinceridade e sem reservas, a capacidade humana e, portanto, os grandes feitos, as conquistas que o homem tem capacidade de produzir. Deus - como sublinhou Bento XVI na encíclica Deus caritas est - não é um adversário do homem, nem teme o seu poder.Pelo contrário, foi Ele que dotou o ser humano da sua capacidade e da sua força. E a Igreja reconhece-o e proclama-o, convidando todas as gerações a esforçar-se por conseguir que o mundo seja cada vez mais humano.

Mas, ao mesmo tempo, é necessário que a capacidade que o ser humano tem seja orientada para o bem, e que o homem seja consciente dos seus limites e se abra ao reconhecimento do valor dos outros, de cada pessoa humana, inclusivé as menos dotadas, e, em última análise, de Deus."

Pontificio Conselho para a Família, Família e procriação humana, 13.05.2006, n. 7.

8.6.06

Tijolos

Os últimos tijolos são sempre os mais difíceis de pôr.
Estou a acabar uma fase da minha vida, para, de imediato, começar outra. Sei o que deixo para trás, mas não sei o que me espera.
Continuará a ser como sempre: "O Senhor guia os cegos pelos caminhos que eles não conhecem".
E do coração brota a oração:
"Domine, ut videam! Domine, ut sit!"

7.6.06

A liberdade

"Na parábola do filho pródigo estão ligados os temas da vida e da liberdade.

O filho que parte de casa quer a vida e, por isso, deseja ser totalmente livre. Ser livre significa, segundo a sua visão, poder fazer tudo aquilo que quer; não ter que aceitar qualquer critério fora ao acima de si próprio. Seguir somente o próprio desejo e a própria vontade. Quem vive deste modo, rapidamente se confrontará com o outro, que deseja viver desse modo. A consequência natural deste conceito egoístico de liberdade é a violência, a destruição mútua da liberdade e da vida. (...)

A liberdade e a responsabilidade vão a par e passo. A verdadeira liberdade demonstra-se na responsabilidade, num modo de agir que assume a corresponsabilidade pelo mundo, por si próprio e pelos outros.

Livre é o filho, a quem pertencem as coisas e que, portanto, não permite que seja destruída. (...) O Espírito Santo torna-nos filhos e filhas de Deus. Ele eleva-nos à própria responsabilidade de Deus pelo mundo, por toda a humanidade. Ensinanos a olhar o mundo, o outro e nós próprios com os mesmos olhos de Deus. Não fazemos o bem como escravos, que não são livres de agir de outro modo, mas fazemos o bem porque trazemos dentro de nós a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e, portanto, também as suas criaturas."

Bento XVI,
Homilia na Celebração das Vésperas da Vigília da Pentecostes, 05.06.2006